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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Pérolas no Oceano

Há muitos, muitos - mesmo muitos! - anos atrás, nós ainda dávamos muita trela [quero lá saber da conotação] à minha Sogra. Tanta que, como o meu Coiso faz questão de me relembrar muitas vezes, era inclusive impulsionada por mim, na tentativa de sermos uma família unida e de eu - egoista -, sentir um pouco que tinha uma segunda mãe ao pé de mim, já que a minha mãe vivia do outro lado do país. Eu ainda não sabia lá muito bem o que a casa gastava e na verdade - como também o Coiso está sempre a dizer - fechava os olhos a muita coisa, sabe-se lá porque diabos.

 

Assim, numa das suas negociatas de sucesso [nenhum], comprou uns time sharings de férias e logo no primeiro, decidiu convidar os filhos para irmos todos, 15 dias para Tenerife, às custas dela. Fez-se almoço de família, combinaram-se datas, alinhavou-se o plano, escolheu-se a vila de apartamentos que iríamos partilhar e as tarefas burocráticas que eram necessárias fazer. Tudo muito giro.

Eu, grávida da segunda, com 6 meses, uma de palmo e meio pela mão, estava realmente contente com a escapatória e a promessa de umas férias em Agosto numa ilha paradisíaca. Tirando o facto de ter que ter pago a minha parte (só pagou os filhos dela e o genro) e dos meus pais terem oferecido as despesas da minha de palmo e meio, recordo-me dessas férias com alguma dose de humor. É que naquela de ela se fazer tantas vezes de tótó, acabou por ser mesmo cómica e em algumas situações, só se envergonhou a ela própria. A nós, deu-nos uma barrigada de riso.

 

Na noite anterior a partirmos, fomos a casa da Sogra levar umas coisas que a cunhada tinha pedido e eu reparo na mala aberta da Sogra, cheia de comida. Latas e latinhas, arroz, massa, bolachas, leites...

Óbvio que lhe fiz a pergunta. Para que raio levava ela aquela tralha toda?

Porque íamos para uma ilha. E ela não sabia se lá havia onde comprar. E como íamos para um aparthotel e tinhamos que cozinhar as próprias refeições...

Adiantou eu responder que havia um grande "Continente" lá? Não. Claro que não. As coisas podiam ser demasiado caras.

Resultado? Hilárico: no aeroporto de Lisboa, as duas malas que levava pesavam mais de 45 kg cada uma, pagou 50 contos para as embarcar (cerca de 250 euros); No aeroporto em Tenerife, esteve duas horas no gabinete da Alfandega a tentar destruir a teoria dos guardas de que a Sogra estava a fazer contrabando.

 

Melhores resultados? Claro!

Chegados ao apartamento, uma das malas pingava. Em pleno Agosto, a senhora achava que um voo Lisboa - Madrid - Tenerife (seis horas) podia muito bem levar congelados na mala, ainda que dentro de embalagens térmicas. Peixe, rissóis, croquetes, costoletas e até salsa e cebola picada. Tudo em água. E sabem que mais estava em água? A farinha e o açúcar, companheiras de viagem dos congelados.

 

Deixem-me falar-vos da mala da roupa. Sim, da roupa. Aquela que tinha fruta e legumes também, entretanto macerados do calor e remexidos pelos guardas, já no meio das tshirts e afins. Tinha pêras, bananas, morangos, laranjas, alface, tomate, batatas, cebolas... Mas não tinha as cuecas, um fato de banho e pior... Não tinha pijamas. (Não esquecer que partilhámos um apartamento)

 

O meu Coiso alugou um carro, pago por nós, para podermos tirar o melhor partido possível das férias. Pequeno, lá está, já que mais ninguém queria sair do aldeamento. Éramos só nós os dois mais uma de palmo e meio... e foi a sorte. Tivemos que levar a Sogra ao tal "Continente" da ilha para poder comprar comida, algumas cuecas, um fato de banho e fiz questão de lhe oferecer uma camisa de dormir. Fora de questão ver a senhora de cuecas todas as noites/manhãs.

O facto de a cena lhe ter custado caro, limpou-lhe o dinheiro que tinha disponível e acabámos por ser nós a pagar o supermercado mas isso não me incomodou nada: comprei o que quis, cozinhei o que me apeteceu e ainda pude dizer às cunhadas, volta e meia, "mas se não gostas destes cereais, dá um salto ao mercado e compra outros", de consciência tranquila.

 

A meio das férias lembrou-se que queria ir passear fora do aldeamento. Eu estava indisposta com as temperaturas de 40 graus, 6 meses de gravidez e uma crise de tensão baixa. Sempre vomitei imenso na gravidez e aquele dia em específico, estava no auge da coisa. Vai daí que, a Sogra vendo a minha recusa em sair e a recusa do filho em me deixar sozinha (as cunhadas na piscina, com a minha moça), decide que é mulher suficiente para apanhar o autocarro da vila e ir passear sozinha. Tranquila, da minha parte, só lhe pedi que levasse um cartão do aparthotel com o número de telefone de lá, não fosse a coisa dar para o torto. (Quais telemóveis? Foi há muitooooosss anos...) Ficou tão ofendida que mais depressa se meteu a caminho.

 

Fomos buscá-la às 10 da noite a um outro aldeamento, no outro lado da vila. Estava perdida, não falava espanhol, não se lembrava do nome do aldeamento e valeu-lhe um outro português trabalhador lá que a assistiu a chorar no meio da rua e por conhecer minimamente a ilha, deduziu onde estavamos, ligou para a recepção e pediu para ligar ao número do apartamento onde estávamos.

 

E aquela tarde na piscina do aldeamento, em que se deixou dormir nas cadeiras e ressonava mais alto que o barulho das crianças todas? Impagável. Quando a filha, envergonhada, a foi acordar, irritada porque lhe disse que ela parecia um macaco, levantou-se da cadeira e começou a imitar um gorila, a fazer sons e a rir à maluca. Só ela é que não percebeu que se envergonhou a ela própria.

 

Como digo... foram umas férias para rir.

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