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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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O surreal em directo

No Domingo de Páscoa tive um daqueles momentos surreais, que julgas que acontece em telenovelas rascas e de argumentação duvidosa ou em filmes de guião barato.

Quem estava online na nossa página do Facebook, apercebeu-se em directo, ao vivo e a cores, a vontade que eu tinha de saltar do sofá e de esganar - ainda que de forma não literal - a senhora minha Sogra. E que se entenda bem, muito bem, porque optei por abrir um estado na página, a falar do assunto, no facebook: é que enquanto o fiz, segurei a minha impaciência, o ímpeto de saltar do sofá e perder toda a minha razão gritando à Sogra "as poucas e boas" que me apetecia, com alguns impropérios pelo meio, que eu também não sou feita de ferro e muito menos, parente de algum anjo.

Valeu-me ter o telefone à mão, comentar no face e ir respondendo às perguntas amiúde. Evitei com isso um tempestade repleta de palavras feias, que teria balbuciado em frente das 3 crianças, que partilhavam a sala comigo. (De acrescentar que as 3 crianças estavam a ouvir a conversa do skype e que as mais velhas estavam tão incrédulas como eu).

 

Disse-vos que teria que escrever aqui esta história para poder exorcizar a minha mente. Mas também precisei de uns dias de silêncio para poder digerir bem a situação e dar espaço ao meu Coiso que fizesse o mesmo e que tomasse as decisões dele, que afinal de contas, acaba por ser o filho e neste caso, desculpem-me a expressão e devida conotação, o filho da mãe. [É só expressão, que o homem é um santo!]

 

Começamos pelo principio e porque para se entender bem a dimensão da coisa, há alguns pontos no tempo que são essenciais.

 

A minha Sogra não teve uma vida fácil. Se calhar, todos nós podemos dizer o mesmo das nossas sogras, mães, tios e afins, da geração anterior à nossa, a geração antes do 25 de Abril. Mas a dela foi particularmente difícil e dou-lhe muito crédito e respeito muito os sacrifícios que fez e a educação que deles resultou aos filhos. Mas isso deveria ter-lhe servido de aprendizagem e não de burrice.

A fome que passou, o meio bocado de pão que partilhou com os filhos abandonados pelo pai, não sendo equitativo para ela, deveria ter-lhe dado ferramentas para aprender a ter uma vida comedida e precaver o futuro. Mas não. Gerou o oposto: conforme a vida foi prosperando, foi gastando, gastando e entrou na espiral das compras facilitadas pelo crédito e sempre que um terminava, o valor libertado dessa prestação tinha uma legenda automática de "onde posso gastar este, o que compro a seguir", não dando espaço para uma poupança, uma antever, uma protecção. Para ela, entenda-se, que os filhos fizeram-se à vida e tornaram-se autónomos muito, muito cedo.

 

Não ajudou nem patrocinou nenhum dos filhos nos estudos. Mesmo sendo professora, tendo acesso a livros mais em conta, não comprou um único livro. Não contribuiu com um tostão para a formação universitária dos filhos. Qualquer um deles.

Em vez disso, na altura em que o meu Coiso estava a meio do curso dele (na altura, o dele durava 6 anos), resolveu comprar uma casa enorme e estaria tudo muito bem, se não tivesse usado os cheques do meu marido - que trabalhava para pagar o curso -, como forma de entregar ao construtor o sinal para o contrato de compra-venda. E estaria tudo ainda melhor se, mês após mês, esses cheques não viessem devolvidos, assegurados depois por um ordenado pequeno que tinha outras intenções e que ela não achava que devesse repôr com a mesma rapidez com que os cheques saíam. Ao terceiro cheque devolvido, o banco cancelou todos os direitos do meu Coiso e levantou uma proibição no Banco de Portugal, com duração mínima de 5 anos. Não importa nada que fossem cheques que a mãe tivesse pedido. Estavam em nome dele. Assinado por ele. Eventualmente ela lá deu a volta a uma das filhas e fez novo acordo com o construtor, o banco dela acabou por libertar o empréstimo e ela comprou a casa.

À conta disso, foram os meus pais que ajudaram o meu marido (na altura, ainda nem era meu marido), a repor os valores dos cheques sem cobertura, a dar-lhe um apoio nas multas que o banco lhe aplicou e a escrever uma carta de referência ao banco - para quem já não se lembra, nesses anos, cheques sem cobertura constituía crime grave e dava cadeia. Principalmente porque falamos de cheques de 100 mil escudos cada (Cerca de 500 euros, que valiam muito mais do que valem agora 500 euros). Comprou a casa e seguiu na vidinha dela. Um "oh pá, filho, desculpa lá. Fiz mal as minhas contas" foi tudo o que o meu Coiso ouviu na altura.

 

Entretanto nós casámos, óbviamente sem qualquer contributo da parte da mãe do noivo, o que também não me incomodou. Muito das despesas pagámos nós e os meus pais ofereceram-nos muito, muito mais. Eu tinha "um sonho" e os meus pais fizeram gosto em realizá-lo.

Claro que ela não estava feliz com o enlace mas também fez questão de dizer que não tinha dinheiro. Dois meses depois de casarmos, comprou uma segunda casa com um único objectivo: alugar para render. Com empréstimo bancário, claro está.

Nada a haver conosco, desde que não nos fosse ao bolso.

Mas foi. E por idiotice, burrice minha/nossa. Havia uma conta em que o meu marido era primeiro titular e ela segundo titular. Daquelas contas do Montepio Geral dos jovens. Era moda na nossa adolescência. E tudo estava bem, havia lá um dinheirinho de parte e era para lá ficar. Até ao dia em que pensámos em utilizar esse dinheiro e não estava lá nada. Serviu de entrada para a tal segunda casa. Águas passadas não movem moinhos e eu não me alongo a contar os tentáculos desta história, que só aqui está para perceberem bem a raíz da cena de Domingo de Páscoa. [Neste capítulo de usufruir de dinheiro que não era dela... temos um livro inteiro]

As minhas moças mais velhas eram bebés e a empresa para a qual eu trabalhava faliu. Dia complicado, esse. Eu tinha uma equipa a trabalhar para mim, informei 18 pessoas do despedimento e às 18 horas o meu director informa-me a mim que eu também ía. Recebi na altura o equivalente a 12 mil euros de indemnização. No dia em que a Sogra soube que eu iria sair da empresa, pediu 6 mil euros ao meu marido, porque ía perder a casa por falta de pagamento. Eu sou muito burra, na altura disse que sim. O plano era ela devolver 500 euros por mês, valor avançado por ela.

Quando o subsidio de desemprego tardou a chegar e lhe dissemos que precisavamos que ela começasse a devolver os tais 500 euros, a resposta foi "mas eu não posso! Se vos DER esse dinheiro, como pago as contas?" - Surreal.

 

Entretanto temos o segundo casamento da Sogra que, fazendo uma festa digna de uma "Tia", vende as duas casas e compra outra mais pequena. Entretanto, o Estado paga-lhe uma cena qualquer que estava em atraso e, porque esteve uns aninhos à espera desse tutu e já lhe estava a fazer comichão, decide comprar uma vivenda de luxo no Algarve, em condomínio privado, com piscina própria. Mas esse dinheiro foi só para o sinal, o belo do empréstimo bancário, teve que existir.

Na altura, há 9 anos atrás, todos os filhos deram a sua opinião de que era demasiado por uma casa, que ela não precisava daquilo, que a prestação mensal era exorbitante, a idade dela e tal e tal e tal. A resposta dela foi peremptória "o dinheiro é meu, ninguém tem nada a haver com isso". Certo. Certíssimo.

O marido estava contra a compra. Inteligente mas MUITO submisso, sabia que o facto de terem 3 casas, todas com empréstimos (ainda que duas arrendadas a terceiros), era já confusão em demasia e não aceitou comprar. Ela não esteve para meias medidas: pediu o divórcio, assinou papéis, entregou, pagou, e no mesmo dia em que recebeu o certificado de que estava divorciada, assinou os papéis da compra da casa. Certo. Nada a haver com isso.

 

Agora, 9 anos depois, reformada da função pública, com rendimento acima da média pelo trabalho duro - é verdade - pelo facto também de ter sido professora no Ultramar [e podia ter-lhe servido para tanta aprendizagem!], o Estado aplica-lhe os cortes que todos sabemos e o ordenado não dá para todos os empréstimos e porcarias de créditos de Cofidis e cenas que foi fazendo ao longo dos anos. Um dos empréstimos já está em penhora, a vida continua a ser vivida como se nada fosse e agora decidiu que vai vender a casa mais pequena (cerca de 400 eur mensais de despesa) para ficar mais folgada. E a vivenda? A vivenda com piscina, 1200 euros de renda ao banco, 100 de condomínio, mensais, IMI inacreditável...?

 

Ora, bem vindos ao meu Domingo de Páscoa.

A meio da tarde, "toca" o Skype [lembram-se? Não vivemos no mesmo Continente - Graças a Deus, há mais de um ano].

- É a minha Mãe - diz o meu Coiso.

- Então atende. É Páscoa, dá lá um gostinho à senhora. - A eterna ingénua, responde [eu]

- Não me apetece. - E o Coiso dá meia volta, retorna à sala e deixa o pc a fazer barulho.

À quarta tentativa da Sogra eu insisti que ele atendesse, não fosse querer desejar boa Páscoa também às netas.

 

"Boa Páscoa, filho" foi de facto a primeira coisa que ela disse. E logo de seguida arrancou com um "Estive a falar com os meus filhos todos e só faltas tu: quero mudar a minha vida e vender a casa de Lisboa e esta do Algarve fica para os meus filhos quando morrer".

Até aqui eu ainda estava de olhos no livro que estava a ler. Nada de mais.

 

Abreviando a conversa e colocando por tópicos, a última dela é assim:

 

- Eu já paguei a casa do Algarve durante nooooovvvveeee anos! Agora é a vossa vez. Porque eu morro não tarda e VOCES é que ficam a gozar a casa. VOCES é que têm que a pagar.

- Fazem um seguro de Vida para mim, que pague a totalidade do empréstimo caso eu morra. Já tenho aqui os papéis e dá 300 euros a cada um. [Hipertensa, diabética, condições cardíacas, obesa, 66 anos... dá para imaginar, certo?]

- Ainda faltam 15 anos do empréstimo e eu não posso continuar a pagar mais de mil euros ao banco todos os meses. Agora é vossa obrigação e quando eu morrer, podem ficar com a casa

- Já fui ao Banco saber e eles dizem que eu posso fazer a obrigação para vosso nome. Tenho aqui os papéis para assinares. E quando morrer, já ficam com a casa.

 

Conforme as frases íam sendo proferidas, eu ía saltando do sofá. E deitando fumo. E tendo ataques de raiva. E coisas assim.

Aquela pessoa que nunca esteve do nosso lado, que nunca ajudou o filho ou as netas, que nunca quis saber se estamos bem ou mal, que nem sequer quis ouvir a opinião do filho na compra da casa, estava ali a dizer aquelas coisas. Com convicção e noção de que estava a ser justa.

 

O meu marido esteve bem. Muito bem. Respondeu à altura, na sua infinita paciência e tom de voz calmo e ainda lhe deu umas quantas lições de vida. Acabou por perguntar o óbvio:

"Mas mãe, não fizeste seguros de vida quando fizeste os empréstimos?"

- Não! Eles são uns ladrões e os seguros ficavam caros, encareciam muito a prestação.

Nem ele nem eu estávamos preparados para ouvir a resposta seguinte:

- Sabes que mais, filho? Eu nem quero saber se pagam ou não. Eu entretanto morro e quando fechar os olhos já nem tenho que me preocupar com as dívidas, são os meus herdeiros que têm que as pagar. As das casas e as dos outros créditos.

 

Isto é surreal.

 

E no fundo, só tenho mesmo muita pena e sofro com o que vai no coração do meu Coiso. Ele diz que nada, que já não o afecta. Mas, até que ponto será mesmo assim?

 

A última palavra foi do meu marido. Da nossa parte, não conta com dinheiro nenhum, nem assinaturas nenhumas. Depois dessa afirmação, a chamada foi muito curta, estava com pressa, a senhora.

Não pediu para falar com as netas, nem perguntou por elas.

 

Assombra-me a ideia das dívidas que a senhora tem e que eu sei que são imensas [ainda lhe fiz muitos IRS e geri as contas mensais uns tempos], passarem um dia para os herdeiros. Os filhos, portanto. Nem sei se o [actual] marido dela herdará alguma coisa. Mas a ideia de que um dia esse problema baterá à nossa porta, tira-me o sossego. Oh se tira.

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