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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Mais de 1000

Até podia dizer que tenho mais de 1000 histórias da Sogra, porque na realidade, até teria.

Algumas o tempo encarrega-se de levar da memória, outras, o amadurecimento pessoal anula-as da consciência; outras, a fé de que já é intrínseco na forma de ser dela e que na realidade não o faz por maldade mas por não saber melhor, apaga-las da minha paciência.

Mas outras ficam. E moem-me a vontade de lhe sorrir. Porque se eu quiser espremer bem a memória e falar de momentos bons com a Sogra, não me consigo lembrar de nenhum.

Se quiser referir uma bondade que tenha sentido, não encontro ligação no meu coração. E pesa-me essa dor, porque acredito que no fundo, nunca lhe foi intencional ser tão pouco bondosa. Aliás, pesa-me saber que se acha uma Sogra boa e eu não me rever como uma nora abençoada com tamanho título.

Isto porque até nas suas melhores acções, houve sempre malícia, descrédito ou ofensa. Tipo "uma no cravo, outra na ferradura" e normalmente, os bons segundos vinham acompanhados de prioridades de cobrança. Como o facto de nos ter oferecido a possibilidade de usufruto do carro quando o nosso se avariou, tinhamos nós duas bebés muito pequenas, com a obrigação de estar ao dispõr dela para qualquer eventualidade. Afinal, o carro era dela e em 3 dias que o Coiso teve o carro, fez mais voltas com ela (Jumbo, lojas, Colombo, amigas dela,...) do que comigo e as bebés. Aliás, peguei nas miudas e apanhei o comboio sozinha para as levar ao Centro de Saúde, à consulta de um mês e às vacinas. Porquê? Porque mesmo sabendo que tínhamos essa marcação, a senhora demorou-se nas suas compras de Supermercado e o Coiso ficou "entalado" no tempo. Serviu de lição.

 

Eu não gosto de falar mal de ninguém e é preciso que se compreenda que não é isso que se faz aqui. Partilham-se histórias, formas de pensar e atitudes que se tiveram. Não existe, falo por mim, ódio envolvido. Porque não me compete odiar ninguém. Aprendi a amar e gosto de o fazer.

O meu marido compartilha da mesma forma de pensar mas, chama-me ingénua e tantas são as vezes que me diz que sofro mais, porque dou atenção a quem não merece a minha atenção. Que perco demasiado tempo a pensar nos outros (Sogra) e nas suas atitudes. É verdade. Talvez porque não compreenda que a Sogra veja em mim uma inimiga e não alguém que ama o seu filho. Por uns anos isso doía-me. A sensação de ser rejeitada com alguma malvadez, corroía-me. Hoje já ignoro, embora continue sem entender ou sequer sem ter justificação.

E sei que nunca serei suficiente, na cabeça dela. Em todos os sentidos. E aqui entra a preferência dela pelos netos das filhas. É que estas, são minhas filhas e isso não é grande virtude, na cabeça dela.

Principalmente porque há um detalhe que nos dias que correm, não me encaixa como normal. A religião.

 

A minha sogra diz-se devota católica, com todo o seu ser e alma. Tudo certo, até aqui. Tem uma fé inabalável e venera a doutrina como se fosse o seu único alimento. Certo.

No fundo, tudo o resto é herege perto dela e todos têm que obedecer a essa sua crença. Ponto final, parágrafo.

 

Eu sou crente. Ou chamem-lhe lá o que quiserem. Dou-vos essa liberdade, porque no final das contas, estou pouco me lixando para o que cada um pensa. Acredito em Deus, sinto-lhe a força e a fé mas não preciso que me digam onde e como me dirigir a ele, não preciso que me coloquem duas gotas de água para me dizerem que sou abençoada ou que tenho a sua energia. Convivo bem com as diferentes formas de existir de todos nós e sei que o que alimenta cada um, é sentido de cada um. A minha forma de pensar não tem que ser igual nem me cabe a mim contestar ou justificar a minha ou a de outros. Chama-se liberdade e muitos morreram ao longo dos séculos para lutar por ela.

 

Desta forma, e acreditando que a liberdade é algo que todos temos de mais precioso, nenhuma das nossas crianças foi baptizada à nascença, deixando para elas a opção de o fazerem quando assim o entenderem, na religião com a qual se identificarem. Ensinamos o que de mais precioso sabemos, a amar, a respeitar, a acreditar na fé que sentimos, quer elas lhes chamem de Deus, de Buda, de ... não importa. Ensinamos a SENTIR e elas definirão nos seus corações, o que lhes falará mais alto. A mesma liberdade que me foi concedida, pelos meus pais.

 

E era aqui que eu queria chegar.

De todas as pequenas grandes atitudes que a minha Sogra tem, são as que ela tem para com as minhas crianças as que me custam mais e as que o tempo não leva, as que a maturidade pessoal não entende, as que o meu coração tem dificuldade em perdoar. Porque as vejo sofrer com algumas das suas atitudes e isso, dói-me como uma lança.

 

A pequenina ainda tinha semanas de vida, as outras tinham 8 e 6 anos. Eu estava numa cama de hospital, gravemente doente. Ao meu lado estava a minha bebé recém nascida, gravemente doente, também. Eu aguentando, ela lutando. As duas mais velhas, com o pai, junto a nós. Na sua inocência, rezavam ao Anjo da Guarda, pedindo com o coração que Deus nos perdoasse e nos devolvesse a vida. Que Deus parasse de castigar e nos perdoasse o pecado de não sermos baptizadas e que elas iam pedir para serem baptizadas para não morrerem também.

E foi aí que eu soube: durante dias e dias a senhora minha Sogra azucrinou os ouvidos das minhas filhas que íamos para o Inferno porque não éramos baptizadas e que Deus ia-nos castigar com a morte.

 

8 e 6 anos. A avó, diz-lhe que a mãe e a irmã bebé vai morrer e é bem feita mas que a avó vai mandar rezar missa de baptismo e baptizá-las logo, para que a morte não as leve e elas não desçam ao Inferno.

 

Nunca vos conseguirei transmitir a dor de alma de ver o medo estampado na carinha delas. Nem o esforço que foi fazê-las re-acreditar na vida sem torturas ou castigos de Deus.

 

O meu marido proíbiu a mãe de se aproximar das nossas filhas e durante meses foi pessoa com quem não tivemos contactos. No primeiro aniversário da neta mais nova, eu senti compaixão e pedi que o meu marido deixasse a avó ver as netas. Porque em última instância, é amor que quero que as minhas filhas aprendam, não o ódio.

 

Valeu de alguma coisa à senhora? Aprendeu com a ausência? Não.

 

E hoje, 8 anos depois, continua a dizer às minhas miúdas que se não se baptizarem e morrerem, vão para o Inferno. Assim como eu.

 

Não lhe desejo mal. Nunca o desejei. Só desejo distância. Muita.

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