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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Do ser sovina

Não sou materialista. E não, não é um eufismo ou generalismo que assenta bem dizer. Simplesmente não sou aquela pessoa que tem que ter porque tem que ter, ou que prefere a marca xpto só porque sim. Claro que não deixo de ser mulher, gosto de coisas giras, gosto de coisas fofinhas e de roupa gira. Gosto de poder comprar coisas às miúdas, algo que posso fazer com um pouco de mais regularidade há coisa de um ano. Não naquela de comprar só por comprar mas num registo diferente, em que se há a necessidade, já não fico atrapalhada ou à espera do próximo ordenado. Batalhámos muito para chegar aqui. Mas tropeçámos muito.

 

Isto para introduzir um assunto que me anda aqui a entalar e que volta e meia me surge a meio da noite na cabeça e me incomoda.

 

A minha sogra não é má pessoa. Segundo dizem, é uma jóia de pessoa. Amiga do seu amigo, muito atenciosa e faz tudo por toda a gente. Menos pelo filho/familia do filho. Vendo bem, nem pelas filhas. (Ou talvez um bocadinho mais por elas.)

 

Podía fazer aqui uma lista, um rol de sovinices que a sogra sempre teve como parâmetro definidamente geral na relação entre ela e nós mas, na realidade, nem vale muito a pena. Mas alguns incomodam-me sobejamente, como o facto de a mesma sogra que tem casas na capital (sim, plural) e uma vila no Algarve, ajardinada e com piscina, é a mesma que num mês de absoluta necessidade, nos exigiu dinheiro para a gasolina que gastava para fazer os 500 metros entre a casa dela e o infantário das miúdas e para comida que lhes dava após o infantário (até chegarmos, mais ou menos uma hora depois). Aliás, ela fez-me uma lista de mercearia para eu comprar. A mesma pessoa que tem uma reforma que lhe permite viajar, pagar um condomínio de uma vila com piscina, teve a avareza de pedir-nos esse valor para ficar com as netas, uma hora por dia porque estávamos ambos a trabalhar horas extras, no meu caso, em dois locais, para conseguir superar a vida. Se ela tinha a obrigação de bancar essa despesa? Não, claro que não. Mas caramba, é família. É avó. Tem bastante. Sabia o sacríficio que fazíamos para termos tudo o mais controlado possível.

Ao fim de um mês achei que era ridículo e resolvi sair de um dos trabalhos extra. Não dava para tolerar aquele tipo de mesquinhice. ("A menina comeu uma banana das minhas. Amanhã trazes, ok? Ou deixa dinheiro e eu compro" - Era assim. De verdade)

Sabem qual foi o discurso dela para as miúdas, que na idade que tinham, absorviam tudo com uma resma de drama? "Ah, pois! A mãe despediu-se agora voces vão ficar pobres e ir viver na rua!". Assim. Contado pela mais velha, em lágrimas de medo, num dia que não queria jantar para "sobrar mais comida". Ocorre-me sempre um adjectivo sobre esta situação, mas não vale a pena.

 

Mas eu já devia saber. Da mulher que oferecia às netas Chupa-chupas como prenda de anos, não se pode esperar muito. Não que me incomodasse ou estivesse à espera que a senhora patrocinasse alguma coisa em específico. Mas chateava-me a pergunta "a menina precisa de alguma coisa?" e eu lá respondia " olhe, um pijaminha, que ela está crescida, dá jeito". Um dia perguntei-lhe directamente porque optou pelo pacote de pastilhas (sabendo que eu não deixava a miúda com 4 anos, comer pastilhas) em vez do tal pijaminha. "Ora essa, roupa é obrigação dos pais, comprar! Ninguém tem que ter essa despesa."

Isto da mulher que me pediu que guardasse a roupa TODA das minhas miúdas para a minha cunhada, porque "a vida é difícil" e assim a rapariga poupava. E poupou. Uma vida inteira porque tinha roupa bem cuidada que ía das minhas para a dela.

 

Ou como naquele Verão em que lhe deu um xilique de ciúme porque as miúdas estavam sempre com a outra avó na praia e decidiu convidá-las para passar uns dias na casa de Verão, com piscina. Que venham as miúdas e a mercearia para comerem, mais uns trocos que ficam para os gelados ou se elas quiserem algum passeio e uma contribuição para os gastos da água e luz. Pergunto-me se terá pedido o mesmo aos sobrinhos dela, que mandou buscar para lá ir passarem esses mesmos dias. Preferi pagar uma colónia de férias e foi a melhor semana de Verão que elas têm memória.

 

Um dos últimos natais em que ainda achei que engolia bem a coisa, aceitei passar o Natal com ela e o marido da altura. Foi na nossa casa. Dividimos despesas: eu tratava das batatas, da couve, do grão, das sobremesas e de tudo o resto, ela comprava somente o bacalhau. Uns dias antes, confirmei tudo. Entretanto, dois familiares meus conseguiram vir passar o Natal conosco... eu liguei-lhe e pedi que contasse com mais duas pessoas nas postas de bacalhau. Foi nesse telefonema que fiquei a saber que, afinal, ela só ía levar a posta dela e a do marido. "Cada um leva a sua posta de bacalhau, que a vida não está para luxos", respondeu-me. "Pedes aos teus convidados que tragam a deles".  

 

Mas sabem, tudo isto incomoda-me pelo ridículo de saber que não lhe falta dinheiro e que patrocina imensas coisas para primos e sobrinhos. Incomoda-me porque são coisas triviais.

 

Mas o que me incomoda mesmo, mesmo muito, é que não gasta um cêntimo para telefonar às netas. De há uns 7 anos para cá, esqueceu-se que tem estas netas. Porque já tem as do lado das filhas e claro, as nossas não importam nada. Ao ponto de ligar para o filho e nem perguntar por elas. Ao ponto do Coiso dizer-lhe "vou passar às miúdas" e ela responder "agora não me dá jeito". Ou de tocar à campaínha e dizer ao filho para descer, dizendo que não tem tempo para subir e dar um abraço às netas.

 

Isso a mim marca-me muito mais que qualquer acto de sovinismo que a sogra tenha tido. Porque mexe com as miúdas. Porque no fundo elas gostariam de ter contacto com a Avó mas já se cansam de ser elas a esforçarem-se. Porque já são crescidas e sabem que a rejeição dói.

E dói-me a mim que, no Natal passado, há mais de 8 meses sem a verem, enviaram-lhe postais escritos e desenhados por elas e nem um pio do outro lado. Nada. Zero.

 

Porque me custa responder-lhes à pergunta "a avó nunca quer saber de nós porquê?". E sabem porquê? Porque só me ocorre um adjectivo para nominar tal criatura. E não é politicamente correcto ensinar-lhes isso.

 

Mas aqui que ninguém nos ouve, cá vai a adjectivação. Porque é uma cabra, minhas filhas.  

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