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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Ainda só foram 48 horas e já chegava.

A coisa começou mal desde o primeiro segundo. Desde o primeiro email da cunhada a informar que a Sogra 2 vinha em tal dia, a tal hora.

 

Deixem-me abrir aqui um grande parêntesis curvo. Ou se calhar, melhor ainda, parêntesis recto: o que me move a ter sangue frio, aturar o momento e não ter fechado a porta, prende-se unicamente com a minha consciência, que pretendo manter limpa, tranquila e sem pesos de culpa. É que a senhora tem 82, não deixa de ser quem criou o Coiso e, para todos os efeitos, com mais ou menos fel, acaba por ser uma velhota a quem não posso deixar de respeitar. Independentemente de não ser das mais respeitosas. Defeito da minha educação, da minha idiotice ou sei lá do quê. Que fique percebido, não é por mais nada. Só não quero é que a senhora tenha um piripaque qualquer e eu ficar de coração pesado por não a ter recebido ou por ter privado o Coiso e moças da presença dela. Para fechar o parêntesis, obviamente que isto não me isenta de passar um bocado menos simpático ou de não ter as veias da fronte inchadas de falta de paciência.

 

Foi tudo ao contrário. A cunhada só vê dinheiro na frente dela. Na escolha de um voo, o que importou foi só e em exclusivo o dinheiro que ia pagar (e que depois dividiu o custo pela irmã e pela sogra 2). Não importou nada o facto de haver aeroportos mais perto, horário mais normal, não ser um dia de semana (de trabalho para nós, portanto)  nem nada.

Resultado: aeroporto a 2 horas de nossa casa, velhota de 82 anos que não fala uma palavra da língua deste país, enfiada num aeroporto para apanhar um voo às 20:30, da Easyjet (mestre dos atrasos), largada no check in como se fosse uma perita na coisa.

Atrasou. Muito. Saiu de lá às 00:15, chegou cá às 3 da manhã. Eram 5 da manhã, estávamos a entrar em casa. Depois de um dia de trabalho, despertador pronto a tocar às 6:30 para mais um dia de trabalho e uma velhota que estava com a pica toda e não se calava. Fizemos mais 50 km que o costume porque só por acaso, nessa noite, havia obras na auto-estrada e estava fechada de madrugada. Tudo a ajudar.

 

Quando a vi sair na porta de chegada, até me faltou o ar. Puxei com gana os músculos da cara e lá consegui desencantar um sorriso. Reparei logo na rapariga aí de uns 23 anos que a acompanhava. Tadinha. Vinha com um ar enfadonho, eu diria até que vinha quase a hiperventilar e a pedir com os olhos que alguém tirasse dali a senhora. Nem 1 minuto foi preciso para a sogra 2 nos apresentar a rapariga, a quem se havia colado no aeroporto e que - tadinha! - veio sentada ao lado, no avião. Quando nos despedimos da rapariga, olhou-me nos olhos e disse-me "boa sorte". Senti-me arrepiar toda.

 

O que mais me custa é a senhora não se calar. Diz de tudo. A toda a hora. E repete, repete, repete. Faz queixinhas, reclama, inventa. É dois em um: tanto está tudo bem como de repente dá-lhe o gás, levanta o tom de voz e fala mal do mundo, da lua, do sol, do universo. E eu pelo meio, claro.

 

Eu virei vinte vezes na cama na hora e meia que tive para dormir (enganei o despertador e acrescentei mais meia hora - custou-me caro, mais tarde). Ela dormiu enquanto quis. Mas não o suficiente para perder de vista o jardim que precisava ser varrido, as flores cortadas, a cerca alinhada e até a treta da árvore não ser de fruto foi culpa minha. Mais a roupa assim, a sala assado e - claro, as janelas por lavar. Está a chover? Não impede que laves as janelas. É feio ter as janelas com uma dedada da miúda pequena.

 

Falou mal de meio mundo, acrescentando sempre que não se mete na vida de ninguém. Cansa-me, ouvi-la. Não tinha fome para almoçar, tomou o pequeno-almoço tarde. Eu relaxei, não sou de comer muito ao almoço, qualquer fruta e um sumo, chega-me. Nem 10 minutos depois, estava a dizer que se sentia mal e que não percebia porque não tinha feito o almoço. Abre tudo na cozinha, mexe e remexe e eu assumo a cena e faço uma sopa rápida e uma salada. Na hora de comer? Uma frutinha e pão com queijo chegam. Só come sopa à noite. Respirei fundo, servi a sopa, coloquei a salada num prato, coloquei-lhe à frente e disse firme: "na minha casa, toda a gente come o que eu cozinho. Quem não gosta, há bons restaurantes na cidade". Sentou, comeu e não piou. À noite fez queixinhas. O Coiso só lhe respondeu "cá em casa, quem manda é a minha senhora."

 

Hoje apanhou-me para o lado e disse em tom baixo "Oh nina, diz-me onde estão as coisas para ir limpar a casa. Tu não tens tempo. E dá-me a roupa para engomar".

- O meu nome é "tal", não é nina e a casa está limpa. A roupa já foi para a senhora que engoma e a senhora não tem nada que fazer aqui a não ser aquilo que queria fazer: estar com as netas e o Coiso. E é muito cedo para já me estar a contrariar por isso, olhe, vá até ao jardim e entretenha-se lá. Não diz que é preciso cortar as flores? Está ali a tesoura das podas.

 

As adolescentes foram espertas. Arranjaram cinema e lanche com os amigos e desertaram-me aqui. A pequenina anda entretida a brincar e neste momento, depois de já ter inspirado e expirado umas quantas vezes, ainda oiço os "hum huns" do Coiso ali na sala, a ouvir as mesmas 20 histórias de ontem, as queixinhas e mal dizeres.

 

Já me disse que não posso comer isto e aquilo e sei lá que mais. Que estou mais magra mas que continuo muito gorda. Que o meu Coiso está barrigudo e que a moça mais velha está demasiado magra, a do meio tem mamas muito grandes e que a pequenina tem que comer muita carne, que o facto de ter restrições é maluquice dos médicos e que nunca fez mal a ninguém comer de tudo, é psicológico. E que eu devia de saber disso, já que sou médica. Nem me apeteceu responder. Nem à letra, nem sem letra.

 

Não se cala. Um minuto. Que pena que tenho a senhora não falar a língua desta gente. Se falasse, mandava-a ali para casa da vizinha, velhota da idade dela e que também gosta da laracha descontínua e sem nexo. Assim sendo, olha, lá terei que...

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