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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Da importância deste blog

Hoje preciso começar desta forma.

Porque é muito importante que se explique, até porque [felizmente] chegamos a pessoas novas todos os dias e, ninguém nasce ensinado, esclarecido ou informado.

Neste blog não se fala mal, não se deseja mal e acima de tudo, não se pretende achincalhar ninguém, que o respeito é muito bonito e faz parte da nossa forma de ser. Contam-se histórias narradas na primeira pessoa, por intervenientes reais e que simplesmente partilham um sentir, um olhar ou mesmo um acontecer. O propósito não é – nunca foi, nunca será –, falar mal, rebaixar ou magoar. Quando iniciámos este projecto, a Criatura e eu, quisemos apenas partilhar as gargalhadas com as centenas de outras pessoas que passam peripécias como nós, com as suas Sogras. Quisemos trazer algum alívio no cenário de loucura que às vezes presenciamos e que sabemos que muitas de vós também presenciam. A opção de serem usados pseudónimos e de pouco mostrarmos sobre a nossa real localização e datas, nada tem a haver connosco em particular mas sim com as pessoas que se tornam as personagens principais deste blog e que, por respeitarmos em última instância a sua pessoa, o seu direito à privacidade, decidimos manter uma discrição propositada. Essa é a nossa maior prova de que não estamos aqui para magoar ninguém nem sequer para tratar mal ninguém.

Também não somos santas. Somos mulheres normais, educadas, com vida profissional e pessoal e que vimos neste projecto uma forma de aliviar os filmes que se passam na nossa cabeça/família, de forma inócua e inocente. Isso não quer dizer que somos mais que ninguém, nem melhores que ninguém. Somos duas [palermas] muito pacientes e que temos como filosofia de vida dar valor ao que realmente é importante e rir do que não o é.
Demorou MUITO tempo a chegarmos a este ponto de equilíbrio. E esse é outro dos nossos objectivos: demonstrar que podemos chegar a um ponto de equilíbrio, quando temos um ou uns familiares tão desequilibrados.

Dito isto, riam bastante, partilhem as nossas histórias com quem acham que possa beneficiar de uma boa gargalhada mas tenham sempre presente que somos "pessoas do bem", para o mal já há quem nos suplante e não nos interessa nada e tal como tudo na vida, estamos aqui para aprender. E para não esquecer o que passamos e sermos um dia, boas sogras.

E só para não dizerem que hoje não vos fiz rir, conto-vos mais uma da Odisseia da Sogra 2:
A nossa banheira tem um sistema de chuveiro eléctrico, simples, mesmo muito simples. Tem um botão Start/Stop e uma rodinha que marca a temperatura da água (de 1 a 8) – que por sinal está sempre no valor ideal (4) para um duche quentinho.
Embora seja só carregar no botão e a água sai logo quentinha, fiz questão de explicar à senhora logo quando chegou que, se quisesse, podia regular a temperatura na tal rodinha, ao seu gosto.
Ao 8º dia ouvia-a reclamar sozinha que estava com frio. Ora, aquilo ficou-me na orelha... a casa tem um sistema central que não permite que a temperatura baixe dos 22º e a senhora com frio, fez-me confusão. Perguntei-lhe se estava bem.

Há 8 dias que tomava banho com a água gelada (no 1).
1) É demasiado sovina, pensou que o 1 significava gastar menos água; 2) É demasiado orgulhosa para perguntar porque é que a água estava gelada.
Confesso que lhe tiro o chapéu. 82 anos de ossos bem rijos! Olha se eu cá aguentava tomar duche de água fria!

Fui vencida pelo cansaço, algumas vezes.

Confesso e admito.

Às vezes, só para não a ouvir repetir dezenas de vezes a mesma coisa, acedi fazer o que queria.

Como aquela manhã em que corri a vila à procura de uma treta de um elástico só porque a senhora embirrou que tinha que coser uns elásticos, nas saias dos uniformes das moças.

- Que estão largas e que se for de elástico dura mais e dá para o ano

E por aí...

Adiantou as moças dizerem que não queriam elásticos nas saias? Ou que tanto faz que dê para o ano, em comprimento não vão dar porque temos que obedecer a uma altura mínima pelo joelho, regras das escolas TODAS deste país? Ou que a própria configuração da saia não pode ser alterada?

Não, claro que não.

Faltam 3 semanas para a escola acabar, faça lá a treta dos elásticos e não me incomode mais a cabeça. A minha e a delas.

Fez.

Esteve cá uma amiga das moças. A saia estava igual, óbvio, é modelo da saia. Queria por força que a miúda tirasse a saia para lhe coser um elástico.

- Foge enquanto podes, disse-lhe a minha.

 

Depois houve aquele dia ao almoço, em que eu voltei para casa depois de uma manhã desgastante e angustiante por si só. Aquela em que ela ficou sozinha na minha casa. Das 8 às 14. Eu sabia que ía ser mau. Mas nunca esperei que fosse assim. Lembrei-me de esconder o ferro de engomar, o aspirador e a lixívia.

 

Nunca me passou pela cabeça que se lembrasse de VARRER o chão alcatifado de uma casa de dois pisos.

Com a vassoura do jardim.

Velha.

Suja.

[a vassoura]

 

Confesso que me saltou a tampa e perguntei se era maluca.

 

- Não encontrei o aspirador.

Foi a resposta.

Adoro este silêncio

A sério. Parece até que o silêncio que desfruto hoje em minha casa é ainda mais... sei lá... fantástico!

 

Senhores, mas que perfeita agonia que foram estes dias! Bom, lição aprendida, quero lá saber se vou para o céu se para o inferno, nunca mais me preocupo com sentimentos de outros e prometo que mantenho a consciência tranquila se tiver que recusar estada a alguém. 

 

Deixei-vos nas primeiras 48 horas. Achava eu que essas tinham sido saturantes... nem sabia ainda no que me havia metido!

 

No primeiro dia útil, segunda-feira - portanto, eu sabia que ia ser a sacrificada. Toda a gente ia sair para os seus afazeres só que, os meus afazeres... são em casa. Como tinha uns relatórios que tinha que enviar sem falta para o laboratório, assim que voltámos de levar a pequena à escola, avisei-a que se entretivesse a ler ou a ver qualquer coisa que eu não podia mesmo dar-lhe atenção. Ela achou por bem que não precisava de atenção, precisava de se ocupar. De fazer coisas que lhe dão gosto. Limpar e arrumar.  

Como eu sabia bem que o Coiso lhe tinha já dado uns apertos que não a queria a fazer nada, não era empregada nem o propósito da vinda dela era se intrometer na lide da nossa casa, voltei a referir que não a iria deixar fazer nada.  

 

No dia anterior, enquanto eu fiz o pequeno-almoço e o Coiso tomava duche, ela entrou no nosso quarto e resolveu mudar os lençóis. O Coiso sai da casa de banho e está lá a senhora, metida a camareira, a esticar os lençóis lavados e no chão, os que eu tinha mudado no dia anterior. É que é ao Domingo que se mudam as camas. Foi lindo de se ver, o berro que ele lhe deu.

 

Nessa manhã de segunda-feira, fez questão de frisar bem ao pequeno-almoço que não queria a senhora a mexer no jardim. Que era cena dele varrer as folhas, arrumar o jardim e que lhe fazia bem ao final do dia vir para casa e dar um jeito ao jardim. Relaxava-o. Todas nós cá em casa sabemos isso. Mesmo eu, que corto e podo e sei lá que mais as plantas, sei que me limito a isso. Que deixo tudo no chão e ele gosta de lá ir varrer e limpar o jardim, tirar as ervas daninhas e tal. E chama-se harmonia.

Ele disse-lhe olho no olho que não a queria a fazer nada no jardim. E em tom de voz que meteu respeito.

 

Estava eu embrenhada nos meus relatórios, de Skype ligado com um colega do laboratório quando me apercebi que ela andava no jardim a fazer o que não devia.

Podou a árvore, cortou as roseiras, apanhou as ervas, cavou, eu sei lá. Chegou cá dentro e perguntou onde estavam os sacos do lixo para as folhas. Eu olhei directa e perguntei se ela tinha noção que estava a desrespeitar o Coiso.

- Mas e tu achas que eu tenho medo dele, achas? Achas que só porque já é um homem feito que devia de ter medo dele?

Responde ela, com ar de gozo, como se fosse muito superior.

- O que eu acho é que o deveria de respeitar, não de ter medo, principalmente porque está na casa dele.

 

Revirou os armários em busca dos sacos e foi acabar o que tinha para fazer na cabeça dela, dizendo-me ainda que se ele ralhasse, dava-lhe ali umas desculpas e aquilo passava-lhe.

 

Só que não lhe passou.

Nessa noite, o Coiso chegou mais tarde e já nem reparou no jardim. Eu fiz-me de desentendida e também não lhe disse nada porque sei que de manhã, a primeira coisa que ele faz é abrir as janelas do nosso quarto que dão para o jardim e "contemplar" a coisa. E foi matemático. Assim que o fez, mandou-se ao ar.

À hora do pequeno-almoço (que tomamos em família), com miúdas e tudo, ele não quis saber. Deu-lhe um sermão de todo o tamanho. Fez questão que entendesse que ela estava a passar por cima da vontade dele, dono da casa e que não lhe admitia isso.

 

Como que a senhora achasse que bastava meia dúzia de lágrimas de crocodilo, ainda lhe disse que só queria ajudar e que ele era mal agradecido. Pimbas, levou com uma frase dita de uma vez só, vincada e bem redonda, que ficou a rodar-lhe na cabeça durante muitas horas:

- Se é para vir para a minha casa para me faltar ao respeito, não volta cá nunca mais. Pode ficar descansada que vou já avisar as minhas irmãs que para a minha casa, não vem NUNCA MAIS.

À filme, à novela mexicana, à romance barato e tosco, levantou-se da mesa do pequeno almoço com um murro na mesa, virou costas, lavou dentes, agarrou nas mais velhas e saíram todos, sem um pio.

 

Eu fiquei com uma senhora sentada na mesa, a chorar. Assim que a porta de casa se fechou, começou aos gritos e aos choros convulsos, como se lhe tivesse acabado de morrer alguém. 

Inspira, expira - pensava eu - inspira, expira. Não adiantou de nada tentar pedir que abrandasse a cena, a miúda de 7 anos estava a ficar impressionada. Nem adiantou dizer-lhe que colheu o que plantou (pareceu-me ser adequada a expressão, já que andou a mexer no jardim do outro). Não adiantou nada de nada. Fomos levar a miúda e voltámos com ela em luto por nada. Tive que mentir ao homem que veio arranjar a máquina de lavar a roupa e dizer que lhe tinha morrido um familiar, já que levou o dia sentada no sofá da sala aos prantos e berros. Não queria comer, queria morrer, o neto que criou como filho, que só não o pariu mas que pagou à parteira para a mãe o parir, era um mostro e tirou-lhe vinte anos de vida. As barbaridades que ouviu eram injustas e criminosas.

 

Ainda liguei ao Coiso e tentei que ele voltasse para casa para amenizar a cena, mas a resposta "É fita dela, a seguir vai dizer-te que não consegue respirar", coisa que aconteceu uns segundos depois, descansou-me um bocado e olha, lá tive que aturar a choradeira.

O meu Coiso não é de dizer as coisas em vão. Ligou para as irmãs, contou-lhes e ligou para o filho dela, antes que a história chegasse ao contrário e a senhora reportasse maus-tratos, como já o fez uma vez. O filho riu-se a bandeiras despregadas e afirmou que se tínhamos aguentado 5 dias inteiros sem subir às paredes, estávamos a ficar prós. Também avisou logo que no dia seguinte estava como nova e voltava às aselhices.

Voltou e de que maneira!

 

Mas isso fica para amanhã.

Ainda só foram 48 horas e já chegava.

A coisa começou mal desde o primeiro segundo. Desde o primeiro email da cunhada a informar que a Sogra 2 vinha em tal dia, a tal hora.

 

Deixem-me abrir aqui um grande parêntesis curvo. Ou se calhar, melhor ainda, parêntesis recto: o que me move a ter sangue frio, aturar o momento e não ter fechado a porta, prende-se unicamente com a minha consciência, que pretendo manter limpa, tranquila e sem pesos de culpa. É que a senhora tem 82, não deixa de ser quem criou o Coiso e, para todos os efeitos, com mais ou menos fel, acaba por ser uma velhota a quem não posso deixar de respeitar. Independentemente de não ser das mais respeitosas. Defeito da minha educação, da minha idiotice ou sei lá do quê. Que fique percebido, não é por mais nada. Só não quero é que a senhora tenha um piripaque qualquer e eu ficar de coração pesado por não a ter recebido ou por ter privado o Coiso e moças da presença dela. Para fechar o parêntesis, obviamente que isto não me isenta de passar um bocado menos simpático ou de não ter as veias da fronte inchadas de falta de paciência.

 

Foi tudo ao contrário. A cunhada só vê dinheiro na frente dela. Na escolha de um voo, o que importou foi só e em exclusivo o dinheiro que ia pagar (e que depois dividiu o custo pela irmã e pela sogra 2). Não importou nada o facto de haver aeroportos mais perto, horário mais normal, não ser um dia de semana (de trabalho para nós, portanto)  nem nada.

Resultado: aeroporto a 2 horas de nossa casa, velhota de 82 anos que não fala uma palavra da língua deste país, enfiada num aeroporto para apanhar um voo às 20:30, da Easyjet (mestre dos atrasos), largada no check in como se fosse uma perita na coisa.

Atrasou. Muito. Saiu de lá às 00:15, chegou cá às 3 da manhã. Eram 5 da manhã, estávamos a entrar em casa. Depois de um dia de trabalho, despertador pronto a tocar às 6:30 para mais um dia de trabalho e uma velhota que estava com a pica toda e não se calava. Fizemos mais 50 km que o costume porque só por acaso, nessa noite, havia obras na auto-estrada e estava fechada de madrugada. Tudo a ajudar.

 

Quando a vi sair na porta de chegada, até me faltou o ar. Puxei com gana os músculos da cara e lá consegui desencantar um sorriso. Reparei logo na rapariga aí de uns 23 anos que a acompanhava. Tadinha. Vinha com um ar enfadonho, eu diria até que vinha quase a hiperventilar e a pedir com os olhos que alguém tirasse dali a senhora. Nem 1 minuto foi preciso para a sogra 2 nos apresentar a rapariga, a quem se havia colado no aeroporto e que - tadinha! - veio sentada ao lado, no avião. Quando nos despedimos da rapariga, olhou-me nos olhos e disse-me "boa sorte". Senti-me arrepiar toda.

 

O que mais me custa é a senhora não se calar. Diz de tudo. A toda a hora. E repete, repete, repete. Faz queixinhas, reclama, inventa. É dois em um: tanto está tudo bem como de repente dá-lhe o gás, levanta o tom de voz e fala mal do mundo, da lua, do sol, do universo. E eu pelo meio, claro.

 

Eu virei vinte vezes na cama na hora e meia que tive para dormir (enganei o despertador e acrescentei mais meia hora - custou-me caro, mais tarde). Ela dormiu enquanto quis. Mas não o suficiente para perder de vista o jardim que precisava ser varrido, as flores cortadas, a cerca alinhada e até a treta da árvore não ser de fruto foi culpa minha. Mais a roupa assim, a sala assado e - claro, as janelas por lavar. Está a chover? Não impede que laves as janelas. É feio ter as janelas com uma dedada da miúda pequena.

 

Falou mal de meio mundo, acrescentando sempre que não se mete na vida de ninguém. Cansa-me, ouvi-la. Não tinha fome para almoçar, tomou o pequeno-almoço tarde. Eu relaxei, não sou de comer muito ao almoço, qualquer fruta e um sumo, chega-me. Nem 10 minutos depois, estava a dizer que se sentia mal e que não percebia porque não tinha feito o almoço. Abre tudo na cozinha, mexe e remexe e eu assumo a cena e faço uma sopa rápida e uma salada. Na hora de comer? Uma frutinha e pão com queijo chegam. Só come sopa à noite. Respirei fundo, servi a sopa, coloquei a salada num prato, coloquei-lhe à frente e disse firme: "na minha casa, toda a gente come o que eu cozinho. Quem não gosta, há bons restaurantes na cidade". Sentou, comeu e não piou. À noite fez queixinhas. O Coiso só lhe respondeu "cá em casa, quem manda é a minha senhora."

 

Hoje apanhou-me para o lado e disse em tom baixo "Oh nina, diz-me onde estão as coisas para ir limpar a casa. Tu não tens tempo. E dá-me a roupa para engomar".

- O meu nome é "tal", não é nina e a casa está limpa. A roupa já foi para a senhora que engoma e a senhora não tem nada que fazer aqui a não ser aquilo que queria fazer: estar com as netas e o Coiso. E é muito cedo para já me estar a contrariar por isso, olhe, vá até ao jardim e entretenha-se lá. Não diz que é preciso cortar as flores? Está ali a tesoura das podas.

 

As adolescentes foram espertas. Arranjaram cinema e lanche com os amigos e desertaram-me aqui. A pequenina anda entretida a brincar e neste momento, depois de já ter inspirado e expirado umas quantas vezes, ainda oiço os "hum huns" do Coiso ali na sala, a ouvir as mesmas 20 histórias de ontem, as queixinhas e mal dizeres.

 

Já me disse que não posso comer isto e aquilo e sei lá que mais. Que estou mais magra mas que continuo muito gorda. Que o meu Coiso está barrigudo e que a moça mais velha está demasiado magra, a do meio tem mamas muito grandes e que a pequenina tem que comer muita carne, que o facto de ter restrições é maluquice dos médicos e que nunca fez mal a ninguém comer de tudo, é psicológico. E que eu devia de saber disso, já que sou médica. Nem me apeteceu responder. Nem à letra, nem sem letra.

 

Não se cala. Um minuto. Que pena que tenho a senhora não falar a língua desta gente. Se falasse, mandava-a ali para casa da vizinha, velhota da idade dela e que também gosta da laracha descontínua e sem nexo. Assim sendo, olha, lá terei que...

...inspirar...

...expirar...

Que S.Miguel nos valhe a paciência

Aqui há uns anos, a senhora dona Sogra resolveu meter-se naqueles Time Sharings das férias. Não daqueles de apartamentos mas daqueles que pagava uma [bruta] mensalidade e depois tinha viagens “a tuta e meia” e com hospedagem gratuita. Que não é bem assim, foi discurso directo e insistente do filho, mas só para variar, ela é que sabia. Seja.

Isto foi assim uns meses a pagar um valor que não se sabia lá muito bem para o que iria servir mas num mês de Fevereiro, a senhora lá recebeu uma cartita a dizer que já podia começar a usufruir das férias “fantásticas” e que inclusive, alguns locais na Ilha de S. Miguel, estavam em promoção. Logo aqui, o meu nariz torceu. Então e não era alojamento gratuito? Seja, não era nada comigo.

Na altura, eu ainda era uma atadinha (leia-se caladinha, parvinha, inocentezinha e que mais quiserem acabado em inha) e fazia-lhe a contabilidade, geria os pagamentos e afins, que ela – com a mania das doenças todas, dizia que já não tinha cabeça. Ora, calhou-me a mim fazer o pedido de reserva através da tal companhia de férias, quer do avião, quer da estada.
A senhora tinha andado mais de 8 meses a pagar a coisa e claro que não queria esperar nem mais um mês. Tinha que ser já no mês de Março e pois claro, tinha que ser para o mais barato de todos, que vocês já lhe conhecem bem a pinta de sovina [quando quer].
Adiantou eu explicar uma série de coisas? Não. Pois não. Adiantou eu demonstrar por A mais B as péssimas decisões que ía fazer? Pois, claro que não.

Então, a saber, temos um rol de peripécias, curiosas e que a mim me deram uma barrigada de riso (mais tarde, porque na altura, eu ainda ficava bastante preocupada e incomodada…). Olhem só…

Ir para S.Miguel, Açores, no início de Março. Aconselhei ir mais para Agosto: queria praia e bom tempo, Março não era o melhor. Falei com uma amiga Açoriana, disse-me que a convencesse a mudar de ideias, Março não era o melhor mês. Foi em Março. Passou frio e apanhou chuva até dizer chega.

Falemos do avião… quem é que no seu perfeito juízo faz 8 horas de viagem para Ponta Delgada? A Sogra. Ir num voo directo que custava quase mais 30 Euros do que o voo via Madrid? Oh. Fora de questão! Resultado, foi via Madrid, aguentou uma escala de 5 horas e chegou a Ponta Delgada de noite. Dia 1 de uma viagem de 8 dias, passado numa sala de espera de Aeroporto. Mas até aqui, nada de mais. Ela estava feliz por ter poupado 30 Euros e a mim, tanto se me dava. Ligou-me umas 4 ou 5 vezes no próprio dia para ter a certeza que eu tinha tudo organizado no tal hotel.

Que não era hotel. Eu sou a Nora. E à Nora, não se dão ouvidos. Falei-lhe no Hotel do Colégio, em pleno centro de Ponta Delgada, onde eu costumo ficar. Agradável, excelentes camas, perto de tudo. Não. Ela queria ir para aquele tal que estava em super mega promoção. O tal que no panfleto era o máximo e, pasme-se, menos 15 Euros que o tal Hotel no centro. Fiz as minhas pesquisas, falei com a amiga e avisei: olhe lá que aquilo é uma residencial e fica longe de tudo. Também não é perto da praia. Oh pá, qual era a minha dúvida? Era mais barato. E ponto final. Resultado? Foi para uma residencial (catita) numa pequenina terrinha, chamada Algarvia.

A mais de uma hora do aeroporto, pagou um dinheirão de táxi e como ali não havia nada nas redondezas, gramou com as refeições que eram servidas a peso de ouro, na tal residencial. A tal que era quase de graça… mas que, afinal, pagava-se o preço normal, que estas coisas têm sempre letras pequeninas.

Praticamente não saiu de lá. Para ir a qualquer lado, só chamando “o carro de praça” e, claro, não era bem como pagar um bilhete de autocarro. Resultado?

D. Sogra achava que ía de férias para fora e não iria precisar de levar grande verba. Era tudo “quase de graça”… Como não estava a contar em gastar logo à partida, o dinheirão de táxi – porque à minha observação “isso fica muito longe do aeroporto” a resposta havia sido “é uma ilha, não deve ser assim tão longe”, viu-se aflita, só para variar.

E é preciso comer. Sim, que mais que qualquer pessoa, a Sogra come e come bem. Para variar, as comidas de reserva que levou – enlatados, arroz e massas, vieram todas de volta. Era um quartinho, não tinha cá usufruto da cozinha (que eu também lhe tinha avisado…) e as pouquíssimas opções de refeição, lá está, custavam dinheiro. No terceiro dia ligou-me para saber se o filho lhe podia desenrascar uns euros. Aproveitei a dica para dar uso à frase “eu não lhe disse que era má opção?” Mas a ligação não era a melhor e ela pulou por cima da frase. Só que a vida não é uma novela com guião e na altura, não nos foi possível desenrascar euros nenhuns e ela lá teve que se virar para outro lado.

Perguntem à minha Sogra se S. Miguel é bonito. A resposta vai ser cómica. “Sei lá! É tudo muito longe, não tem nada para se fazer e chove os dias inteiros”. É dos meus destinos favoritos mas para ela…? Nem pensar. Dizer-lhe que a escolha mal pensada dela é o que lhe dá essa opinião? Nada. Os senhores da tal agência de férias não tinham colocado aquela residencial no panfleto se não fosse “das melhores”.

O avião de volta… foi para o aeroporto com meio dia de antecedência, porque “não havia nada para fazer”. Eu ainda sugeri dar um salto ao centro de Ponta Delgada, já que o avião era ao final da tarde e tinha tempo de sobra. Mas não, não fosse o avião “sair mais cedo”. Haja paciência.

Perdeu o bilhete. Chegou ao aeroporto, não tinha bilhete. E já não tinha dinheiro para mais nada. Ligaram-me do aeroporto, a dizer que a A MINHA MÃE estava perdida no aeroporto, sem bilhete. Mas esperem. Como a senhora não sabia como nos ligar, disse aos polícias do aeroporto onde eu trabalhava, eles arranjaram o número e ligaram. E a mim, chega-me um colega e diz “a polícia quer falar contigo por causa da tua mãe.” Assim. Tal e qual. Resumindo, comprou-se novo bilhete, valeu-nos a tal minha amiga que vive em Ponta Delgada, salvadora da nação, um voo directo da SATA e a senhora lá embarcou de regresso. Passou-lhe dois cheques pré-datados para lhe devolver o valor da passagem e seguiu viagem.

No chão da minha sala, pousou a mala da roupa, abriu para tirar de lá umas t-shirts para as miúdas, que tinha comprado na aldeia da Algarvia no primeiro dia e, de repente, começa a rir à gargalhada. Lá estava o bilhete, guardado em cima da roupa. Porque se vais viajar de avião, é óbvio que guardas o bilhete dentro da mala de roupa que normalmente vai para o porão. Então, é senso comum, não?

Sossego a mais...

Sinto-me um bocadinho como o passarinho que fica à espera que a cobra venha ao ninho.
Pode parecer um enorme e grande disparate mas na realidade, [até eu] de vez em quando vacilo nas minhas certezas e me tremem as pernas.
No Domingo passado a minha Sogra resolveu telefonar. Nunca se espera grande coisa dali por isso, confesso que até ao Coiso aquilo meteu uma certa desconfiança. Não queria nada. Mesmo nada. Só saber das meninas, desejar-lhes um feliz Dia da Criança e mais nada.
Quis dar um beijinho ao filho, pelo que pediu à neta que lhe passasse o telefone. E deu. Durou 5 minutos, a conversa com ele. Generalidades, pouco contou, pouco quis saber.
Perguntou se eu estava e se podia “dar-me um beijinho”. O Coiso fugiu à resposta, não a quis a falar comigo, arranjou uma daquelas desculpas triviais e ficou-se por ali.
Soou-me a muito, muito estranho. A engodo. A qualquer coisa que não bate certo com a personalidade dela.
Está tudo muito calmo e isso incomoda-me.
Tirou-me o sossego, entretanto. Porque me apercebi que ser “boazinha”, ainda que seja algo que não uso como rótulo mas sim como lema de vida, me vai valer um valente precedente – coisa aliás, que um par de leitoras deste blog, fez questão de me avisar.
O ter encaixado em mim e no meu lar, vontade suficiente para relevar o passado e permitir a estada da Sogra 2, gera um voucher automático que cria o precedente de receber um membro da família aqui, na minha casa, no meu lar, neste novo país que nos acolhe. E isso… isso vai ter que ser muito bem gerido. Se pensam que compram passagens e depois aparecem por aqui e já está, estão muito enganados.

Porque se há coisa que me incomoda, é quererem dar-me a volta pela calada. E eu nem sempre sou boa rés para aguentar surpresas de última hora.

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