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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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[500] Prometido é devido.

Outro dia, prometi na página do facebook, que quando estivéssemos nos 500 likes, contava o que aconteceu da única vez que confrontei directamente a minha sogra. E prometido é devido.

A minha sogra gosta de cultivar a ideia de que é maluca, porque se ela o fizer, tem sempre desculpa para se comportar da pior forma. Diz que quando o Homem era pequeno um incidente grave lhe tirou saúde física e mental, eu não sou médica para argumentar sobre isso, mas tenho a certeza, que a parte psicológica foi aumentada por ela ao longo do tempo, para se poder safar do mau carácter, para poder fazer o que lhe apetece, para ser sempre a coitadinha que tem desculpa, porque pobrezinha, tantos anos e ainda não está boa da cabeça. Para algumas coisas estava sempre muito desorientada, mas para outras já funcionava perfeitamente, era conforme o assunto e o interesse, conforme o que lhe dava mais jeito. A minha sogra é assim tipo uma diva** vá, mas em mau.

Pois que sempre houve tensões, mas tirando aquela vez, tenho praticamente a certeza que nunca a confrontei directamente. É que é aborrecido lidar com gente parva, que não sabe dialogar e arranja constantemente chatices. Como de uma vez em que ficou na nossa casa e que resolveu desaparecer sem dizer rigorosamente nada, já era tardíssimo e começamos a ficar preocupados, quando finalmente chegou devemos ter manifestado isso mesmo, pedindo que dissesse qualquer coisa quando fosse sair, só naquela de não ficarmos a pensar que tinha sido atropelada por um camião ou raptada por uma grupo de terroristas, mas a alminha não compreendeu e prontamente fez uma birrinha, que se ia embora e que nós a tratávamos mal, que a estávamos a desrespeitar e mi mi mi.

Certo ano, fomos de visita a outro país, passar o natal com a sogra e com o marido nº3 (quando eu contar sobre o marido nº3 é que vai ser!). Diz que o natal é uma época muito dolorosa para a senhora e como ela coitadinha tem problemas, é preciso dar o desconto. Dando os descontos todos, tivemos episódios fabulosos como cruzar-se connosco na rua (numa cidade que fomos visitar por causa dela) e não nos falar, por exemplo, ou como o de na véspera de natal ter oferecido presentes a toda a gente (incluindo pessoas que ela nunca deve ter visto na vida, mas que sabia que lá iam estar) menos a mim. Já nem falo da garrafa de lixívia no porta-bagagens, que apesar da tampa de segurança, se abriu e me desgraçou uma saia acabada de comprar, porque não quero que pensem que estou a insinuar que ela a deixou mal tapada de propósito.

Anyway... Numa tarde qualquer, quando já andávamos constantemente a engolir desaforos e viver de silêncios desconfortáveis, fomos passear a um sitio qualquer para aqueles lados. Estou a ser honesta quando digo "sítio qualquer", porque efectivamente não me lembro onde fomos, é que não faço a mais pálida ideia. O que sei é que apanhamos imenso trânsito, assim daquele trânsito que não dá para fugir, numa estrada minúscula bloqueada nos dois sentidos. A minha querida sogra, pessoa que não pode estar mais que cinco minutos com o rabo na mesma cadeira, já estava a deitar fumo pelas ventas. A Miúda era muito pequena e às vezes chorava, foi preciso entrete-la com conversas e cantorias e no entretanto, a alminha continuava a bufar. O sol foi descendo e o que deveria ter sido uma volta para ver a vista, foi um flop, porque ficou escuro. Quando finalmente chegamos ao sítio já estava toda a gente com os nervos em franja, ela porque, bem, nem sei porquê e nós, porque aturá-la é pior do que mudar 546 fraldas cheias de cocó e a senhora tem o dom de tornar qualquer situação desconfortável.

Não sei como começou a discussão, deve ter sido qualquer coisa sobre o que fazer a seguir, porque entretanto continuávamos no carro, às voltinhas, a tentar decidir qual direcção tomar. Nós estávamos exaustos, tínhamos uma criança pequena e provavelmente deveríamos querer comer qualquer coisa e ir descansar e ela queria ir alapar-se para casa de uma irmã que vivia para ali perto. Sei que a certo ponto, no meio de toda aquela insanidade ela me disse (já aos berros) qualquer coisa como "não gosto da maneira como tratas o meu filho" e eu, que estava a tentar estar calada com todas as minhas forças, respondi-lhe. Respondi-lhe e não foi no meu tom bonzinho e condescendente. Respondi-lhe à bruta, porque olha, já que tenho a fama, também quero ter o proveito.

E é agora que as pessoas pensam, pronto passou-se, foi para ali uma peixeirada do caraças, começou tudo aos berros e veio a polícia porque estavam a perturbar a ordem pública. Mas não. Não foi isso, lamento.

Não se pode negar que lhe respondi, que respondi, mas para ser sincera não respondi muito. Ia lá aquela pessoa dar-me oportunidade de dizer o que pensava... Assim que se viu confrontada, a minha rica sogra fez o que é seu apanágio em situações semelhantes, fugiu. E para fugir o mais rápido que conseguia, nem esperou... Saiu do carro em andamento! Assim mesmo como se imagina, abriu a porta e foi-se embora. Vá lá que íamos devagar senão calculo que tínhamos acabado o serão no hospital.

Se atentarmos ao facto de estarmos numa terrinha no meio do nada, de noite escura, com graus negativos lá fora então a coisa mais inteligente a fazer no meio de uma discussão (que nós próprios criamos) não é sair de um carro em andamento e desaparecer da vista? Obviamente que é. 500 pontos para a minha sogra. É a maior.

Contas feitas a coisa foi tão boa ou tão má, que eu, que adoro viajar, cheguei a casa e fui ligar para a companhia área para trocar os bilhetes e regressar mais cedo. Infelizmente, dada a época, não conseguimos e tivemos de aguentar aquele filme mais uma data de dias. Foram os melhores (NOT!) natal e ano novo da minha vida, uma oportunidade única de aprender uma lição importantíssima: o lugar da (minha) sogra é a milhas, quantas mais melhor. Pena que ainda me levou 5 anos para por o ensinamento em prática.

 

 

**O significado moderno de prima donna assenta-lhe que nem uma luva. Para ver, AQUI.

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