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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Carta à minha sogra...

Querida Sogra,

 
Como está? E a saudinha?
 
Sabia que estão quase a passar cinco anos desde a última vez que tivemos contacto directo consigo? Cinco anos são muitos anos. Anos suficiente para lhe escrever qualquer coisa sem ressentimentos ou acusações. Sabe, há cinco anos eu era outra pessoa, era mais tolerante e disponível, menos exigente, mais generosa com o meu tempo. Há cinco anos, as minhas melhores características estavam esfumadas em quase nada porque vivia bloqueada pela certeza de que à família é obrigatório desculpar tudo. Há cinco anos eu ainda tinha às costas o peso de achar que lhe estávamos a dever alguma coisa. Há quase cinco anos, quando me enfiei num avião para remediar a situação que você causou, ainda não sabia o que é a vida me ia trazer. Mas agora já sei e parece-me que é tempo, tempo de lhe agradecer.
 
Há dias o miúdo foi brincar para casa de um amigo, férias da escola e quem estava a tomar conta dele era a avó, mãe da mãe. Estivemos ali dez minutos à conversa e a senhora lá me foi dizendo que agora é ela, mas que nas próximas férias vêm a avó mãe do pai e que se vão revezando assim, que aproveitam para passar tempo com os três netos e dão uma mão aos filhos. Na semana passada, à porta do supermercado, ajudei um senhor que se estatelou no meio do chão e abriu o sobrolho. Não fiz grande coisa, dei-lhe lenços de papel e depois dele ter limpo a ferida, pus-lhe um penso que tinha na mala. Mas ajudar aquele senhor, que tinha certamente idade para ser meu pai, lembrou-me que eu não tenho pai e que consequentemente os meus filhos não têm avô. Ainda outro dia dizia isso ao seu filho, que muitas vezes permito excessos aos miúdos porque tendo a querer compensar as coisas que não lhes podemos dar, como uma vida familiar normal. Ia escrever que esse é o único ressentimento que lhe guardo, mas no fundo não é verdade. A verdade é que lamento, lamento que os miúdos nunca venham a ter a experiência que eu tive, mas no fundo há coisas piores, não é? Por isso lhe digo, mesmo calculando que o assunto nunca a tenha incomodado, que não há ressentimentos, o passado está no passado e o que importa é aprender com a experiência.
 
Por falar no passado… Os miúdos estão enormes! À parte daquilo que é normal para a idade, acho que temos feito um trabalho decente a educa-los. Temos superados mudanças de casa e escola com beijos e abraços e nos momentos mais difíceis focamo-nos nas coisas boas, como facto deles falarem fluentemente três línguas (quase 4) aos 11 e 7 anos. Viajamos o que podemos porque queremos mostrar-lhes o mundo e todos os dias nos esforçamos por ser bons exemplos. Gostaríamos que eles se tornassem em pessoas humildes mas seguras de si e do seu valor, justas e altruístas, felizes. É por isso que lhes ensinamos que respeito é devido a todos, que não somos melhores que ninguém, que ser diferente é bom e que devemos sempre dizer a verdade. Eu sou particularmente pouco tolerante a mentiras, confesso, e essa é uma das razões pelas quais nunca lhes escondemos o porquê de sermos tão poucos. A mais velha lembra-se daquela vez em que você lhe disse que os sapatos dela eram horríveis, sabia? Ela teria quê, 4 ou 5 anos? Não se lembra de grandes pormenores, mas recorda-se do mau estar, das discussões, da tensão. O mais novo não tem qualquer memória, ainda outro dia ficou espantado porque nunca se tinha lembrado que o pai também tinha uma “mãe”, a realidade dele sempre foi assim e lamento dizer-lho, mas podia sentar-se ao lado dele no autocarro e ele não saberia quem é. Mas há sempre qualquer coisa de bom em tudo o que nos acontece, se não fosse a decisão que tomamos há cinco anos, não teríamos legitimidade para ensinar aos nossos filhos que devemos exigir que nos tratem bem, que nos respeitem na igualdade e na diferença, não poderíamos explicar-lhes que as relações entre as pessoas não se baseiam em sangue ou parentesco, mas em lealdade, em honestidade e em amor incondicional. 
 
O seu filho está óptimo, mais giro e interessante que nunca. Sei que ele dá o devido valor ao que tem e que já fez as pazes com o que a vida não lhe permite, mas às vezes custa-me que ele não tenha ninguém da sua família de origem que goste e precise verdadeiramente dele. É que o seu filho mais novo é um homem a sério. Se vivêssemos todos uma vida normal, acho que era dele que você, querida sogra, devia estar mais orgulhosa.  É que apesar da negligencia e da falta de modelos nos anos de formação (e da absoluta incompetência para escolher prendas ou fazer surpresas), ele é o melhor pai e marido de sempre. Profissionalmente, só para lhe dar uma noção do quanto subestimou o seu filho, digo-lhe que na multinacional onde trabalha só há três pessoas acima dele. E asseguro-lhe que ele não se ficará por ali porque tem potencial para muito, muito mais. Como mãe entristece-me que você não possa ver a pessoa verdadeiramente excepcional que o seu filho se tornou, mas sei também que se visse nunca teria capacidade para apreciar… Ele confessou-me outro dia, já nem sei do que é que estávamos a falar na altura, que nunca se sentiu completamente confortável na vossa família, que muitas vezes se sentia envergonhado pela falta de decoro e excesso de alarvaria. É triste, não é? Espero que lhe contente saber que apesar de tudo ele encontrou um lugar no mundo e que ao contrário de muita gente, não vive em piloto automático. Quanto a mim, sejamos sinceras, não vale a pena gastar tempo com assuntos que não lhe interessam minimamente. 
 
Acrescento somente que estamos bem, todos bem, vivemos em paz. E é essa paz que tenho que lhe agradecer, no fundo. Esta paz só começou a ser construída no dia em que cessamos todo o contacto consigo. E se ao inicio foi esquisito, se a decisão radical doeu por nos fazer questionar os nossos próprios valores, agora tudo é claro: a diferença é normal, a personalidade é tolerável, mas a maldade é absolutamente inaceitável. Sabe, é que eu compreendo a diferença e sei que a educação e formação moldam as pessoas mas não fazem delas melhores ou piores, o que faz de nós o que somos é o que temos no coração e o seu, querida sogra, está cheio de rancor, de inveja, de peçonha. Não sei porquê e para ser sincera já nem me interessa, o que sei é que, da mesma maneira que os anos de contacto consigo esbateram mas não destruíram o que o meu coração tem de melhor, você nunca vai deixar de ser assim. 
 
Foi um processo longo, mas digo-lhe honestamente, já não lhe desejo mal nenhum (em tempos um balde de fertilizante animal pela cabeça abaixo não me teria parecido nada mal). Mas também lhe asseguro, não a quero na minha vida. Jamais. Nem a si nem ao resto da trupe, que feliz ou infelizmente é igual ou parecida consigo. Viver rodeado de gente que trás ao de cima o melhor de nós é como um estilo de vida, depois de experimentar, o que estava para trás deixa de fazer sentido. Foram 10 anos de uma tortura constante, depois mais uns tantos para por tudo no lugar, hoje, passados quase cinco anos do final da novela mexicana que foi lidar consigo não podia estar mais satisfeita com a decisão de não aturar mais merdas. Obrigada querida sogra, porque depois de devidamente empilhadas, analisadas e processadas, as intrigas, as tensões, as quase imperceptíveis crueldades fizeram de mim uma pessoa muito melhor. Obrigada querida sogra por me ter levado ao limite, por ter testado a minha sanidade mental e a elasticidade do meu casamento. Obrigada pelo exemplo do tipo de mãe que eu nunca vou ser. Obrigada querida sogra por ter fugido na calada da noite, facilitando a nossa mudança de vida e posteriores descobertas sobre outros familiares igualmente tóxicos. Obrigada, apesar de tudo e principalmente, pelo seu filho.
 
Espero que esta carta a encontre bem e, utilizando um lugar comum de forma perfeita, não posso terminar sem deixar lhe desejar... o dobro daquilo que você me deseja a mim.
 
a sua nora, 
Criatura

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