Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

As autoras:

Arquivo:

Adoro este silêncio

A sério. Parece até que o silêncio que desfruto hoje em minha casa é ainda mais... sei lá... fantástico!

 

Senhores, mas que perfeita agonia que foram estes dias! Bom, lição aprendida, quero lá saber se vou para o céu se para o inferno, nunca mais me preocupo com sentimentos de outros e prometo que mantenho a consciência tranquila se tiver que recusar estada a alguém. 

 

Deixei-vos nas primeiras 48 horas. Achava eu que essas tinham sido saturantes... nem sabia ainda no que me havia metido!

 

No primeiro dia útil, segunda-feira - portanto, eu sabia que ia ser a sacrificada. Toda a gente ia sair para os seus afazeres só que, os meus afazeres... são em casa. Como tinha uns relatórios que tinha que enviar sem falta para o laboratório, assim que voltámos de levar a pequena à escola, avisei-a que se entretivesse a ler ou a ver qualquer coisa que eu não podia mesmo dar-lhe atenção. Ela achou por bem que não precisava de atenção, precisava de se ocupar. De fazer coisas que lhe dão gosto. Limpar e arrumar.  

Como eu sabia bem que o Coiso lhe tinha já dado uns apertos que não a queria a fazer nada, não era empregada nem o propósito da vinda dela era se intrometer na lide da nossa casa, voltei a referir que não a iria deixar fazer nada.  

 

No dia anterior, enquanto eu fiz o pequeno-almoço e o Coiso tomava duche, ela entrou no nosso quarto e resolveu mudar os lençóis. O Coiso sai da casa de banho e está lá a senhora, metida a camareira, a esticar os lençóis lavados e no chão, os que eu tinha mudado no dia anterior. É que é ao Domingo que se mudam as camas. Foi lindo de se ver, o berro que ele lhe deu.

 

Nessa manhã de segunda-feira, fez questão de frisar bem ao pequeno-almoço que não queria a senhora a mexer no jardim. Que era cena dele varrer as folhas, arrumar o jardim e que lhe fazia bem ao final do dia vir para casa e dar um jeito ao jardim. Relaxava-o. Todas nós cá em casa sabemos isso. Mesmo eu, que corto e podo e sei lá que mais as plantas, sei que me limito a isso. Que deixo tudo no chão e ele gosta de lá ir varrer e limpar o jardim, tirar as ervas daninhas e tal. E chama-se harmonia.

Ele disse-lhe olho no olho que não a queria a fazer nada no jardim. E em tom de voz que meteu respeito.

 

Estava eu embrenhada nos meus relatórios, de Skype ligado com um colega do laboratório quando me apercebi que ela andava no jardim a fazer o que não devia.

Podou a árvore, cortou as roseiras, apanhou as ervas, cavou, eu sei lá. Chegou cá dentro e perguntou onde estavam os sacos do lixo para as folhas. Eu olhei directa e perguntei se ela tinha noção que estava a desrespeitar o Coiso.

- Mas e tu achas que eu tenho medo dele, achas? Achas que só porque já é um homem feito que devia de ter medo dele?

Responde ela, com ar de gozo, como se fosse muito superior.

- O que eu acho é que o deveria de respeitar, não de ter medo, principalmente porque está na casa dele.

 

Revirou os armários em busca dos sacos e foi acabar o que tinha para fazer na cabeça dela, dizendo-me ainda que se ele ralhasse, dava-lhe ali umas desculpas e aquilo passava-lhe.

 

Só que não lhe passou.

Nessa noite, o Coiso chegou mais tarde e já nem reparou no jardim. Eu fiz-me de desentendida e também não lhe disse nada porque sei que de manhã, a primeira coisa que ele faz é abrir as janelas do nosso quarto que dão para o jardim e "contemplar" a coisa. E foi matemático. Assim que o fez, mandou-se ao ar.

À hora do pequeno-almoço (que tomamos em família), com miúdas e tudo, ele não quis saber. Deu-lhe um sermão de todo o tamanho. Fez questão que entendesse que ela estava a passar por cima da vontade dele, dono da casa e que não lhe admitia isso.

 

Como que a senhora achasse que bastava meia dúzia de lágrimas de crocodilo, ainda lhe disse que só queria ajudar e que ele era mal agradecido. Pimbas, levou com uma frase dita de uma vez só, vincada e bem redonda, que ficou a rodar-lhe na cabeça durante muitas horas:

- Se é para vir para a minha casa para me faltar ao respeito, não volta cá nunca mais. Pode ficar descansada que vou já avisar as minhas irmãs que para a minha casa, não vem NUNCA MAIS.

À filme, à novela mexicana, à romance barato e tosco, levantou-se da mesa do pequeno almoço com um murro na mesa, virou costas, lavou dentes, agarrou nas mais velhas e saíram todos, sem um pio.

 

Eu fiquei com uma senhora sentada na mesa, a chorar. Assim que a porta de casa se fechou, começou aos gritos e aos choros convulsos, como se lhe tivesse acabado de morrer alguém. 

Inspira, expira - pensava eu - inspira, expira. Não adiantou de nada tentar pedir que abrandasse a cena, a miúda de 7 anos estava a ficar impressionada. Nem adiantou dizer-lhe que colheu o que plantou (pareceu-me ser adequada a expressão, já que andou a mexer no jardim do outro). Não adiantou nada de nada. Fomos levar a miúda e voltámos com ela em luto por nada. Tive que mentir ao homem que veio arranjar a máquina de lavar a roupa e dizer que lhe tinha morrido um familiar, já que levou o dia sentada no sofá da sala aos prantos e berros. Não queria comer, queria morrer, o neto que criou como filho, que só não o pariu mas que pagou à parteira para a mãe o parir, era um mostro e tirou-lhe vinte anos de vida. As barbaridades que ouviu eram injustas e criminosas.

 

Ainda liguei ao Coiso e tentei que ele voltasse para casa para amenizar a cena, mas a resposta "É fita dela, a seguir vai dizer-te que não consegue respirar", coisa que aconteceu uns segundos depois, descansou-me um bocado e olha, lá tive que aturar a choradeira.

O meu Coiso não é de dizer as coisas em vão. Ligou para as irmãs, contou-lhes e ligou para o filho dela, antes que a história chegasse ao contrário e a senhora reportasse maus-tratos, como já o fez uma vez. O filho riu-se a bandeiras despregadas e afirmou que se tínhamos aguentado 5 dias inteiros sem subir às paredes, estávamos a ficar prós. Também avisou logo que no dia seguinte estava como nova e voltava às aselhices.

Voltou e de que maneira!

 

Mas isso fica para amanhã.

As autoras:

Arquivo: