Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

As autoras:

Arquivo:

As férias com a sogra.

Fui de férias com a sogra duas vezes. 

Da primeira vez, ela e o meu pai estavam juntos há pouco tempo, eu era nova, não tinha filhos e ainda me descabelava em privado com as atrocidades da senhora. Fomos os quatro para um destino longínquo, com praias de mar azul e areia branca. Foi giro e embora não tivesse corrido na perfeição, nem foi mau de todo. Ela roubava éclairs de chocolate do buffet à hora do almoço para nós comermos (não que fosse preciso roubar, que aquilo era tudo incluído) e fazia as fitas do costume, que não queria assim e assado, que era tudo uma porcaria e coiso e tal, mas nós estávamos concentrados um no outro e na experiência em si e não lhe passamos grande cartão. 

Quero acreditar que o karma é lixado e que todos os pequenos incómodos que ela possa ter causados foram compensados pela experiencia capilar que viveu naqueles 10 dias. Ainda em Lisboa foi ao cabeleireiro fazer uma permanente e pintar umas madeixas de vermelho. Lá, depois de lavar o cabelo, as madeixas passaram a laranja debotado e os caracóis eram mais apertados que os do Marco Paulo nos anos 80, fazendo parecer que a senhora tinha um pequeno caniche multicolor na cabeça. 

Na segunda vez a miúda devia ter 3 anos, parece-me. Fomos acampar para Espanha. Começou logo bem pelo facto de nós detestarmos acampar... Depois foi a necessidade de comprar tendas e sacos camas e acessórios vários... E por fim houve a (maravilhosa) viagem de carro, com ela a bufar mais alto que uma chaleira ao lume.

 

 

As reclamações eram constantes, tudo estava mal, tudo era horrível, detestável, um horror. Se tivéssemos tido discernimento nem tínhamos ido, mas uma pessoa sabe lá. Escolher um sítio para montar a tenda foi o drama número um. O drama número dois foi efectivamente montar a tenda. O terceiro foi encher os colchões. O quarto arrumar as coisas. O quinto ir jantar fora. O sexto dormir. O sétimo acordar e ir à casa de banho. O oitavo fazer o pequeno-almoço. O nono... Já estão a ver não estão? 

O plano era ir uma semana, mas como já devem calcular, acho que lá ficamos dois dias. Ao segundo dia a má vontade já era tanta, que para o almoço fez uns ovos mexidos com salsichas que eram a coisa mais nojenta asquerosa que já vi, serviu-os nuns pratos gordurosos que metiam nojo deixavam muito a desejar ao nível da higiene e como se isso não bastasse, mandou um pontapé na mesa e foi tudo parar ao meio do chão. No auge dos ânimos exaltados eu fui pôr água a aquecer para fazer café e (porque a senhora não podia estar ao sol, o fogão teve de ser posto dentro da tenda) peguei fogo aquela merda toda. Foi épico, só vos digo. É-PI-CO

viagem de volta para Lisboa foi menos animada do que um velório. Sua excelência consegue sugar o bom humor a qualquer um, por mais que uma pessoa tente, é impossível aproveitar o que quer que seja ao pé dela. Lembro-me de estarmos a tirar as coisas do carro á porta de nossa casa e de ela fazer fita porque estávamos a levar os sacos cama para cima, principalmente o saco cama da miúda, que por acaso é daqueles de criança, pequenos e assim. 

Foi uma experiência... Surreal, vá.

Da importância deste blog

Hoje preciso começar desta forma.

Porque é muito importante que se explique, até porque [felizmente] chegamos a pessoas novas todos os dias e, ninguém nasce ensinado, esclarecido ou informado.

Neste blog não se fala mal, não se deseja mal e acima de tudo, não se pretende achincalhar ninguém, que o respeito é muito bonito e faz parte da nossa forma de ser. Contam-se histórias narradas na primeira pessoa, por intervenientes reais e que simplesmente partilham um sentir, um olhar ou mesmo um acontecer. O propósito não é – nunca foi, nunca será –, falar mal, rebaixar ou magoar. Quando iniciámos este projecto, a Criatura e eu, quisemos apenas partilhar as gargalhadas com as centenas de outras pessoas que passam peripécias como nós, com as suas Sogras. Quisemos trazer algum alívio no cenário de loucura que às vezes presenciamos e que sabemos que muitas de vós também presenciam. A opção de serem usados pseudónimos e de pouco mostrarmos sobre a nossa real localização e datas, nada tem a haver connosco em particular mas sim com as pessoas que se tornam as personagens principais deste blog e que, por respeitarmos em última instância a sua pessoa, o seu direito à privacidade, decidimos manter uma discrição propositada. Essa é a nossa maior prova de que não estamos aqui para magoar ninguém nem sequer para tratar mal ninguém.

Também não somos santas. Somos mulheres normais, educadas, com vida profissional e pessoal e que vimos neste projecto uma forma de aliviar os filmes que se passam na nossa cabeça/família, de forma inócua e inocente. Isso não quer dizer que somos mais que ninguém, nem melhores que ninguém. Somos duas [palermas] muito pacientes e que temos como filosofia de vida dar valor ao que realmente é importante e rir do que não o é.
Demorou MUITO tempo a chegarmos a este ponto de equilíbrio. E esse é outro dos nossos objectivos: demonstrar que podemos chegar a um ponto de equilíbrio, quando temos um ou uns familiares tão desequilibrados.

Dito isto, riam bastante, partilhem as nossas histórias com quem acham que possa beneficiar de uma boa gargalhada mas tenham sempre presente que somos "pessoas do bem", para o mal já há quem nos suplante e não nos interessa nada e tal como tudo na vida, estamos aqui para aprender. E para não esquecer o que passamos e sermos um dia, boas sogras.

E só para não dizerem que hoje não vos fiz rir, conto-vos mais uma da Odisseia da Sogra 2:
A nossa banheira tem um sistema de chuveiro eléctrico, simples, mesmo muito simples. Tem um botão Start/Stop e uma rodinha que marca a temperatura da água (de 1 a 8) – que por sinal está sempre no valor ideal (4) para um duche quentinho.
Embora seja só carregar no botão e a água sai logo quentinha, fiz questão de explicar à senhora logo quando chegou que, se quisesse, podia regular a temperatura na tal rodinha, ao seu gosto.
Ao 8º dia ouvia-a reclamar sozinha que estava com frio. Ora, aquilo ficou-me na orelha... a casa tem um sistema central que não permite que a temperatura baixe dos 22º e a senhora com frio, fez-me confusão. Perguntei-lhe se estava bem.

Há 8 dias que tomava banho com a água gelada (no 1).
1) É demasiado sovina, pensou que o 1 significava gastar menos água; 2) É demasiado orgulhosa para perguntar porque é que a água estava gelada.
Confesso que lhe tiro o chapéu. 82 anos de ossos bem rijos! Olha se eu cá aguentava tomar duche de água fria!

Fui vencida pelo cansaço, algumas vezes.

Confesso e admito.

Às vezes, só para não a ouvir repetir dezenas de vezes a mesma coisa, acedi fazer o que queria.

Como aquela manhã em que corri a vila à procura de uma treta de um elástico só porque a senhora embirrou que tinha que coser uns elásticos, nas saias dos uniformes das moças.

- Que estão largas e que se for de elástico dura mais e dá para o ano

E por aí...

Adiantou as moças dizerem que não queriam elásticos nas saias? Ou que tanto faz que dê para o ano, em comprimento não vão dar porque temos que obedecer a uma altura mínima pelo joelho, regras das escolas TODAS deste país? Ou que a própria configuração da saia não pode ser alterada?

Não, claro que não.

Faltam 3 semanas para a escola acabar, faça lá a treta dos elásticos e não me incomode mais a cabeça. A minha e a delas.

Fez.

Esteve cá uma amiga das moças. A saia estava igual, óbvio, é modelo da saia. Queria por força que a miúda tirasse a saia para lhe coser um elástico.

- Foge enquanto podes, disse-lhe a minha.

 

Depois houve aquele dia ao almoço, em que eu voltei para casa depois de uma manhã desgastante e angustiante por si só. Aquela em que ela ficou sozinha na minha casa. Das 8 às 14. Eu sabia que ía ser mau. Mas nunca esperei que fosse assim. Lembrei-me de esconder o ferro de engomar, o aspirador e a lixívia.

 

Nunca me passou pela cabeça que se lembrasse de VARRER o chão alcatifado de uma casa de dois pisos.

Com a vassoura do jardim.

Velha.

Suja.

[a vassoura]

 

Confesso que me saltou a tampa e perguntei se era maluca.

 

- Não encontrei o aspirador.

Foi a resposta.

Adoro este silêncio

A sério. Parece até que o silêncio que desfruto hoje em minha casa é ainda mais... sei lá... fantástico!

 

Senhores, mas que perfeita agonia que foram estes dias! Bom, lição aprendida, quero lá saber se vou para o céu se para o inferno, nunca mais me preocupo com sentimentos de outros e prometo que mantenho a consciência tranquila se tiver que recusar estada a alguém. 

 

Deixei-vos nas primeiras 48 horas. Achava eu que essas tinham sido saturantes... nem sabia ainda no que me havia metido!

 

No primeiro dia útil, segunda-feira - portanto, eu sabia que ia ser a sacrificada. Toda a gente ia sair para os seus afazeres só que, os meus afazeres... são em casa. Como tinha uns relatórios que tinha que enviar sem falta para o laboratório, assim que voltámos de levar a pequena à escola, avisei-a que se entretivesse a ler ou a ver qualquer coisa que eu não podia mesmo dar-lhe atenção. Ela achou por bem que não precisava de atenção, precisava de se ocupar. De fazer coisas que lhe dão gosto. Limpar e arrumar.  

Como eu sabia bem que o Coiso lhe tinha já dado uns apertos que não a queria a fazer nada, não era empregada nem o propósito da vinda dela era se intrometer na lide da nossa casa, voltei a referir que não a iria deixar fazer nada.  

 

No dia anterior, enquanto eu fiz o pequeno-almoço e o Coiso tomava duche, ela entrou no nosso quarto e resolveu mudar os lençóis. O Coiso sai da casa de banho e está lá a senhora, metida a camareira, a esticar os lençóis lavados e no chão, os que eu tinha mudado no dia anterior. É que é ao Domingo que se mudam as camas. Foi lindo de se ver, o berro que ele lhe deu.

 

Nessa manhã de segunda-feira, fez questão de frisar bem ao pequeno-almoço que não queria a senhora a mexer no jardim. Que era cena dele varrer as folhas, arrumar o jardim e que lhe fazia bem ao final do dia vir para casa e dar um jeito ao jardim. Relaxava-o. Todas nós cá em casa sabemos isso. Mesmo eu, que corto e podo e sei lá que mais as plantas, sei que me limito a isso. Que deixo tudo no chão e ele gosta de lá ir varrer e limpar o jardim, tirar as ervas daninhas e tal. E chama-se harmonia.

Ele disse-lhe olho no olho que não a queria a fazer nada no jardim. E em tom de voz que meteu respeito.

 

Estava eu embrenhada nos meus relatórios, de Skype ligado com um colega do laboratório quando me apercebi que ela andava no jardim a fazer o que não devia.

Podou a árvore, cortou as roseiras, apanhou as ervas, cavou, eu sei lá. Chegou cá dentro e perguntou onde estavam os sacos do lixo para as folhas. Eu olhei directa e perguntei se ela tinha noção que estava a desrespeitar o Coiso.

- Mas e tu achas que eu tenho medo dele, achas? Achas que só porque já é um homem feito que devia de ter medo dele?

Responde ela, com ar de gozo, como se fosse muito superior.

- O que eu acho é que o deveria de respeitar, não de ter medo, principalmente porque está na casa dele.

 

Revirou os armários em busca dos sacos e foi acabar o que tinha para fazer na cabeça dela, dizendo-me ainda que se ele ralhasse, dava-lhe ali umas desculpas e aquilo passava-lhe.

 

Só que não lhe passou.

Nessa noite, o Coiso chegou mais tarde e já nem reparou no jardim. Eu fiz-me de desentendida e também não lhe disse nada porque sei que de manhã, a primeira coisa que ele faz é abrir as janelas do nosso quarto que dão para o jardim e "contemplar" a coisa. E foi matemático. Assim que o fez, mandou-se ao ar.

À hora do pequeno-almoço (que tomamos em família), com miúdas e tudo, ele não quis saber. Deu-lhe um sermão de todo o tamanho. Fez questão que entendesse que ela estava a passar por cima da vontade dele, dono da casa e que não lhe admitia isso.

 

Como que a senhora achasse que bastava meia dúzia de lágrimas de crocodilo, ainda lhe disse que só queria ajudar e que ele era mal agradecido. Pimbas, levou com uma frase dita de uma vez só, vincada e bem redonda, que ficou a rodar-lhe na cabeça durante muitas horas:

- Se é para vir para a minha casa para me faltar ao respeito, não volta cá nunca mais. Pode ficar descansada que vou já avisar as minhas irmãs que para a minha casa, não vem NUNCA MAIS.

À filme, à novela mexicana, à romance barato e tosco, levantou-se da mesa do pequeno almoço com um murro na mesa, virou costas, lavou dentes, agarrou nas mais velhas e saíram todos, sem um pio.

 

Eu fiquei com uma senhora sentada na mesa, a chorar. Assim que a porta de casa se fechou, começou aos gritos e aos choros convulsos, como se lhe tivesse acabado de morrer alguém. 

Inspira, expira - pensava eu - inspira, expira. Não adiantou de nada tentar pedir que abrandasse a cena, a miúda de 7 anos estava a ficar impressionada. Nem adiantou dizer-lhe que colheu o que plantou (pareceu-me ser adequada a expressão, já que andou a mexer no jardim do outro). Não adiantou nada de nada. Fomos levar a miúda e voltámos com ela em luto por nada. Tive que mentir ao homem que veio arranjar a máquina de lavar a roupa e dizer que lhe tinha morrido um familiar, já que levou o dia sentada no sofá da sala aos prantos e berros. Não queria comer, queria morrer, o neto que criou como filho, que só não o pariu mas que pagou à parteira para a mãe o parir, era um mostro e tirou-lhe vinte anos de vida. As barbaridades que ouviu eram injustas e criminosas.

 

Ainda liguei ao Coiso e tentei que ele voltasse para casa para amenizar a cena, mas a resposta "É fita dela, a seguir vai dizer-te que não consegue respirar", coisa que aconteceu uns segundos depois, descansou-me um bocado e olha, lá tive que aturar a choradeira.

O meu Coiso não é de dizer as coisas em vão. Ligou para as irmãs, contou-lhes e ligou para o filho dela, antes que a história chegasse ao contrário e a senhora reportasse maus-tratos, como já o fez uma vez. O filho riu-se a bandeiras despregadas e afirmou que se tínhamos aguentado 5 dias inteiros sem subir às paredes, estávamos a ficar prós. Também avisou logo que no dia seguinte estava como nova e voltava às aselhices.

Voltou e de que maneira!

 

Mas isso fica para amanhã.

As autoras:

Arquivo: