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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Que S.Miguel nos valhe a paciência

Aqui há uns anos, a senhora dona Sogra resolveu meter-se naqueles Time Sharings das férias. Não daqueles de apartamentos mas daqueles que pagava uma [bruta] mensalidade e depois tinha viagens “a tuta e meia” e com hospedagem gratuita. Que não é bem assim, foi discurso directo e insistente do filho, mas só para variar, ela é que sabia. Seja.

Isto foi assim uns meses a pagar um valor que não se sabia lá muito bem para o que iria servir mas num mês de Fevereiro, a senhora lá recebeu uma cartita a dizer que já podia começar a usufruir das férias “fantásticas” e que inclusive, alguns locais na Ilha de S. Miguel, estavam em promoção. Logo aqui, o meu nariz torceu. Então e não era alojamento gratuito? Seja, não era nada comigo.

Na altura, eu ainda era uma atadinha (leia-se caladinha, parvinha, inocentezinha e que mais quiserem acabado em inha) e fazia-lhe a contabilidade, geria os pagamentos e afins, que ela – com a mania das doenças todas, dizia que já não tinha cabeça. Ora, calhou-me a mim fazer o pedido de reserva através da tal companhia de férias, quer do avião, quer da estada.
A senhora tinha andado mais de 8 meses a pagar a coisa e claro que não queria esperar nem mais um mês. Tinha que ser já no mês de Março e pois claro, tinha que ser para o mais barato de todos, que vocês já lhe conhecem bem a pinta de sovina [quando quer].
Adiantou eu explicar uma série de coisas? Não. Pois não. Adiantou eu demonstrar por A mais B as péssimas decisões que ía fazer? Pois, claro que não.

Então, a saber, temos um rol de peripécias, curiosas e que a mim me deram uma barrigada de riso (mais tarde, porque na altura, eu ainda ficava bastante preocupada e incomodada…). Olhem só…

Ir para S.Miguel, Açores, no início de Março. Aconselhei ir mais para Agosto: queria praia e bom tempo, Março não era o melhor. Falei com uma amiga Açoriana, disse-me que a convencesse a mudar de ideias, Março não era o melhor mês. Foi em Março. Passou frio e apanhou chuva até dizer chega.

Falemos do avião… quem é que no seu perfeito juízo faz 8 horas de viagem para Ponta Delgada? A Sogra. Ir num voo directo que custava quase mais 30 Euros do que o voo via Madrid? Oh. Fora de questão! Resultado, foi via Madrid, aguentou uma escala de 5 horas e chegou a Ponta Delgada de noite. Dia 1 de uma viagem de 8 dias, passado numa sala de espera de Aeroporto. Mas até aqui, nada de mais. Ela estava feliz por ter poupado 30 Euros e a mim, tanto se me dava. Ligou-me umas 4 ou 5 vezes no próprio dia para ter a certeza que eu tinha tudo organizado no tal hotel.

Que não era hotel. Eu sou a Nora. E à Nora, não se dão ouvidos. Falei-lhe no Hotel do Colégio, em pleno centro de Ponta Delgada, onde eu costumo ficar. Agradável, excelentes camas, perto de tudo. Não. Ela queria ir para aquele tal que estava em super mega promoção. O tal que no panfleto era o máximo e, pasme-se, menos 15 Euros que o tal Hotel no centro. Fiz as minhas pesquisas, falei com a amiga e avisei: olhe lá que aquilo é uma residencial e fica longe de tudo. Também não é perto da praia. Oh pá, qual era a minha dúvida? Era mais barato. E ponto final. Resultado? Foi para uma residencial (catita) numa pequenina terrinha, chamada Algarvia.

A mais de uma hora do aeroporto, pagou um dinheirão de táxi e como ali não havia nada nas redondezas, gramou com as refeições que eram servidas a peso de ouro, na tal residencial. A tal que era quase de graça… mas que, afinal, pagava-se o preço normal, que estas coisas têm sempre letras pequeninas.

Praticamente não saiu de lá. Para ir a qualquer lado, só chamando “o carro de praça” e, claro, não era bem como pagar um bilhete de autocarro. Resultado?

D. Sogra achava que ía de férias para fora e não iria precisar de levar grande verba. Era tudo “quase de graça”… Como não estava a contar em gastar logo à partida, o dinheirão de táxi – porque à minha observação “isso fica muito longe do aeroporto” a resposta havia sido “é uma ilha, não deve ser assim tão longe”, viu-se aflita, só para variar.

E é preciso comer. Sim, que mais que qualquer pessoa, a Sogra come e come bem. Para variar, as comidas de reserva que levou – enlatados, arroz e massas, vieram todas de volta. Era um quartinho, não tinha cá usufruto da cozinha (que eu também lhe tinha avisado…) e as pouquíssimas opções de refeição, lá está, custavam dinheiro. No terceiro dia ligou-me para saber se o filho lhe podia desenrascar uns euros. Aproveitei a dica para dar uso à frase “eu não lhe disse que era má opção?” Mas a ligação não era a melhor e ela pulou por cima da frase. Só que a vida não é uma novela com guião e na altura, não nos foi possível desenrascar euros nenhuns e ela lá teve que se virar para outro lado.

Perguntem à minha Sogra se S. Miguel é bonito. A resposta vai ser cómica. “Sei lá! É tudo muito longe, não tem nada para se fazer e chove os dias inteiros”. É dos meus destinos favoritos mas para ela…? Nem pensar. Dizer-lhe que a escolha mal pensada dela é o que lhe dá essa opinião? Nada. Os senhores da tal agência de férias não tinham colocado aquela residencial no panfleto se não fosse “das melhores”.

O avião de volta… foi para o aeroporto com meio dia de antecedência, porque “não havia nada para fazer”. Eu ainda sugeri dar um salto ao centro de Ponta Delgada, já que o avião era ao final da tarde e tinha tempo de sobra. Mas não, não fosse o avião “sair mais cedo”. Haja paciência.

Perdeu o bilhete. Chegou ao aeroporto, não tinha bilhete. E já não tinha dinheiro para mais nada. Ligaram-me do aeroporto, a dizer que a A MINHA MÃE estava perdida no aeroporto, sem bilhete. Mas esperem. Como a senhora não sabia como nos ligar, disse aos polícias do aeroporto onde eu trabalhava, eles arranjaram o número e ligaram. E a mim, chega-me um colega e diz “a polícia quer falar contigo por causa da tua mãe.” Assim. Tal e qual. Resumindo, comprou-se novo bilhete, valeu-nos a tal minha amiga que vive em Ponta Delgada, salvadora da nação, um voo directo da SATA e a senhora lá embarcou de regresso. Passou-lhe dois cheques pré-datados para lhe devolver o valor da passagem e seguiu viagem.

No chão da minha sala, pousou a mala da roupa, abriu para tirar de lá umas t-shirts para as miúdas, que tinha comprado na aldeia da Algarvia no primeiro dia e, de repente, começa a rir à gargalhada. Lá estava o bilhete, guardado em cima da roupa. Porque se vais viajar de avião, é óbvio que guardas o bilhete dentro da mala de roupa que normalmente vai para o porão. Então, é senso comum, não?

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