Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

As autoras:

Arquivo:

Histórias de família

Ou de como o real às vezes parece guião de novela mexicana.

 

Correndo o risco de me expor demasiado ao explicar meia história de família, a ver se consigo fazer aqui um bom retrato que vos dê a dimensão real de eu ter duas sogras - como se uma só não bastasse.

 

A Sogra (mãe do Coiso) regressou um dia a casa para descobrir que o marido já lá não estava, que deixou as gavetas vazias e com ele levou o que lhe interessou. Deixou uma casa disfuncional, uma mulher abandonada e três crianças que, no meio desta confusão toda, tiveram que se contentar com o que havia e crescer num mundo que não lhes foi justo. Sei muitas coisas deste casamento interrompido. Não só porque ouvi de várias partes as versões que lhes convinham, mas porque quis um dia, que um familiar me desse uma caixa cheia de fotos e papéis - coisas velhas, muito velhas, que eu adoro - onde, por acaso, estava um monte de cartas escritas piedosa e apaixonadamente, cheias de detalhes e de lágrimas, pela Sogra (mãe do Coiso) para o Sogro, e que nunca chegaram ao destino. Curiosamente, cartas que foram escritas para esta sogra, também nunca lhe chegaram às mãos. Pelo caminho, cartas de irmãs para irmãs, de mães para filhas. Esta caixa, abandonada num sótão da Avó do Coiso, chegou-me às mãos, provavelmente, sem se saber o quanto de uma vida lá estava dentro. E eu também nunca me desfiz, a não ser na partilha com o Coiso. Muita coisa ficou explicada, acreditem.

 

Por exemplo, a forma como a Avó do Coiso odiava a nora e o quanto conspirava contra a senhora. Com meio mundo e com toda a garra, a mãe do Coiso era o centro das atenções e claro, quando o filho abandonou a nora, esta avó culpou a nora, que outro motivo seria válido para justificar que o rapaz fugisse para outro país, sem sequer dar cavaco? Daí a ficar com o Coiso e criá-lo como um filho e não como um neto, foi um pulinho.

 

Então temos, de um lado a mãe do Coiso que, de forma legítima - aceito, é sogra por direito e faz o seu papel de coitadinha para o filho e de diabo para mim. E depois, do outro lado, uma avó que criou o neto durante parte da infância e toda a adolescência e como tal, acha-se no direito de exigir o estatuto de sogra também. Afinal o "fui mais que uma mãe" é o lema da vida dela. Eu chamo-lhe a sogra 2. E quando uma anda mais sossegada, a outra lembra-se de puxar do pau da vassoura e picar o ninho. Às vezes... não há paciência.

 

Milhentas histórias que vos posso contar. Algumas, vimo-nos no meio das batalhas de Titãs entre estas sogras, noutras, é a ver qual das duas consegue ser mais mesquinha connosco. Enfim.

 

Agora para algo mais mexicano: a família da Sogra 2 (a Avó do Coiso), é amiga da família dos meus pais, desde sempre. Daí eu ser uma menina de colo da Avó e que mantive o estatuto de querida e fofinha e tal e tal durante dezenas de anos - até o meu namoro com o Coiso virar coisa séria e a Sogra 2 começar a olhar para mim não como a menina fofinha mas como a mulher-vestida-de-ladra que lhe ía roubar o neto de casa. E a minha vida começou a ser inundada com o seu fel.

 

Já levava 5 anos de namoro quando tive forçosamente que me mudar para a capital e embora de início estivesse num apartamento alugado, estava só e longe do centro. A Avó do Coiso tinha um quarto vazio e na altura convidou-me para ir viver para lá e sempre estaria no meio da família. Os meus pais concordaram e eu passei a pagar à avó o valor de renda que pagava no apartamento e a fazer as compras da comida para 3 (eu, a avó e o Coiso), algo que não me incomodava. Por ter tido uma educação muito rígida (e que eu agradeço, acreditem), achei que estaria no meu dever fazer as tarefas da casa - a avó trabalhava 12 horas diárias e eu tinha as manhãs semi-livres. Limpei, lavei e passei a ferro. Fiz refeições e quando a avó chegava, verificava a casa, passava os dedos na mobília e criticava o napron mal esticado na cómodo ou a camisa mal estendida ou a sopa muito grossa, ao jantar. Enfim, havia sempre o que criticar. Eu ficava sentida, mas calada. Era miúda, estava ali para estudar e sentia-me sortuda por poder estar com o Coiso, ainda que não dormíssemos no mesmo quarto.

 

A tal família da sogra 2, amiga desde sempre dos meus pais, começou a olhar-me de esguelha, deixei de ser a menina querida e fofinha e passei a ser tida de ponta e a cabeça do Coiso a levar a lavagem de que eu não era boa rés para ele. Um dia apercebi-me: a avó andava a contar cenas mirabolantes que tinham de tudo: que ela era escrava, que eu obrigava a que o jantar fosse o que eu queria e ela vinha cansada e ainda tinha que cozinhar, que ela tinha que limpar a porcaria que eu deixava e que eu era mal-educada. Inclusive que eu estava ali de graça e que os gastos da comida eram demais para ela. O típico guião de novela mexicana. Eu soube por acaso. Calhou ouvir uma conversa paralela e fui tirar os meus nabos da púcara.

Chegou aos ouvidos dos meus pais e claro, quem não vê não sabe, estamos a falar de coisas com 20 anos (sem telemóveis e afins) e a ordem foi que largasse tudo e voltasse para a aldeia, JÁ!

 

Eu não queria acreditar no que os meus ouvidos deixavam entrar quando uma das tias do Coiso me contou as atrocidades que andavam a soar sobre mim. Impressionante as histórias rocambolescas.  Não tive outro remédio. Comprei um daqueles gravadores pequeninos, de jornalistas, enfiei-lhe uma cassete, coloquei num bolso e enfrentei a fera.

Sentada na cozinha com ela, perguntei-lhe se gostava que eu estivesse ali em casa. A resposta cor de rosa e cheia de mimo que deu, a ajuda preciosa que era, a casa e roupa sempre impecável, o jantar pronto quando ela chegava, o Coiso feliz, a ajuda que era o dinheiro da renda e a comida que eu estava sempre a comprar... tudo, direitinho, saiu daquela senhora. E eu gravei. E depois fiz-lhe a questão directa "porque andou então a dizer a toda a gente o contrário? Isto e aquilo e tal?" Ui. Até chorou a dizer que era mentira e que nunca tinha dito tal coisa, que as pessoas são más e que querem é que o neto a odeie e o rosário todo de maldades que lhe fazem. Que a irmã Xpto é que é a má da fita, que ela é que envenenou os meus pais e por aí a fora.

 

Sei dizer-vos que foi muito complicado para os meus pais ouvirem a tal cassete. Porque é muito mais fácil acreditar-se numa avozinha querida que numa miúda universitária. Que tive que implorar que ouvissem a cassete. Mas quando a ouviram? O mundo desmoronou e eles perceberam muito bem as tramóias que vinham dali. Por mim, estava esclarecido o assunto com os meus pais, estava bem. Mas o Coiso decidiu que eu não havia de ser a má da fita e num daqueles almoços de família bem recheado, a meio da sobremesa, resolveu colocar a cassete alto e bom som.

Novela mexicana, estou a dizer-vos: uns levantaram-se e abandonaram o local, outros cochichavam, outros ripostavam uns com os outros, a Avó chorava as mesmas lágrimas de crocodilo de sempre e eu, fiquei quietinha a observar enquanto me apeteceu. Depois pedi para ir para casa e saí.

 

Mudei de casa, óbvio. E o Coiso também. Foi viver comigo.

 

As coisas nunca mais foram as mesmas, é certo. E os meus pais perderam a ligação forte que tinham com os amigos, ficando uma coisa mais... nhec. A Avó virou uma Sogra 2 com a bagagem toda apetrechada mas eu já estava preparada. Houve alturas que se juntaram as duas sogras contra nós, outras que tiraram à vez.

 

Dou gargalhadas cada vez que me recordo da cara da sogra 2 ao ouvir a cassete.

 

Entretanto, 20 e tal anos já se passaram e muita história já aconteceu. E ela sabe que comigo não faz farinha. Mas tenta. E prevejo que vão ser umas férias engraçadas... oh, se vão...

As autoras:

Arquivo: