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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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O segundo marido. [Parte II]

Não sei ao certo como é que a minha sogra conheceu o marido nº2. Eu achava que tinha qualquer coisa que ver com um apartamento que ela comprou depois do divórcio do marido nº1, mas o Homem diz que não, que se conheceram no "baile". Tirando o que eu própria vivi, toda a informação que tenho sobre o marido nº2 é dúbia. O relacionamento, que com toda a certeza, não terá chegado a uma década, passou-se durante o final da adolescência/início da idade adulta do Homem, daí a falta de detalhes.

Não faço ideia do que é que os terá juntado, mas tenho a minha teoria... E a minha teoria é que foi uma coisa que deu jeito. Ela, divorciada, abandonada e traída precisava de provar que também podia arranjar outro tipo, o ideal era ser um tipo com a vida estabelecida, dinheiro para gastos e que se embeiçasse por ela ao ponto de não olhar para o lado. No fundo, conseguiu isso tudo, mas não pelas razões que pensava. Ele, 25 anos mais velho (já possivelmente a meio dos 70's), pintou o melhor quadro que pode, acenou com as notas e com a casa grande em Lisboa e esperou que fosse o suficiente para ela vir atrás, afinal dava-lhe jeito alguém para tratar dele, com o bónus de ser uma mulher mais nova 25 anos, que ele podia passear à trela em vestidos de lantejoulas.

Depois da vizinha, do colégio interno, da tia, quando finalmente tinha voltado a viver com a mãe, lá foi outra vez o Homem recambiado para nova escola e nova casa. Diz que viveram juntos e depois casaram. Ela num vestido cor-de-rosa, assinaram os papéis no civil e deram uma festança à beira-rio. Diz que tinham uma vida pacata, iam ao baile e de férias para Espanha, ele ainda trabalhava e ela era a trophy-wife que tinha o jantar pronto a horas. Uma perfeição. Mas a perfeição era só aparente, porque rapidamente se percebeu que aquele marido 25 anos mais velho não era na realidade o que ela pensava ter comprado. Possessivo, controlador e ciumento, com falta de pachorra para aturar o miúdo que ela tinha trazido atrás, sem paciência para as frescuras dela, o príncipe transformou-se em sapo. Depois foi aguentar. Diz que houve cenas de pancadaria e arrufos vários, mas o Homem não viu nada. E eu também não.

Se se lembram, no primeiro post deste blog falei do marido nº2, vinha com ela, no dia em que a conheci. 

Nunca tive uma opinião concreta sobre o senhor, pouco contacto tive com ele, na verdade. Estive na casa onde viviam algumas vezes, passei lá uma véspera de Natal inclusive, mas acho que nunca trocamos grandes impressões. Hoje, tenho alguma pena dele. Acho que contas feitas ele tinha mau feitio mas era uma pessoa íntegra e não merecia o que ela lhe fez. 

Depois de ver que a coisa não era bem como ela pensava, a minha sogra jogou com as cartas que tinha. Mentir era-lhe natural e por isso foi fácil. Quando o marido estava, a minha sogra era a mulher perfeita, quando ele ia para o trabalho ela aproveitava para viver a vida dela, para ir onde ele não queria que ela fosse, para falar mal dele, para conhecer outras pessoas... Como o meu pai. 

Naquela época, eu e o Homem namorávamos e andávamos à procura de uma casa. Num laivo de inteligência que nos viria a custar anos de paz, resolvemos levá-los (a mãe dele, na altura casada e o meu pai, na altura já separado) connosco para dar uma opinião. Sim, fomos nós que os apresentamos, nesse momento épico que viria a alterar a realidade tal como a conhecíamos. Depois desse dia estivemos todos juntos algumas vezes (incluindo o marido nº2) mas nada nos faria prever que certo dia, à hora do almoço, num restaurante genérico da capital, nos iria ser comunicado que a minha sogra ia deixar o marido para se mudar para outro país com o meu pai. 

E quando vocês pensam que a coisa não podia ser pior, eu digo que podia, e que foi.

É que a ironia não estava perdida na minha sogra. O primeiro marido ter desaparecido, depois de dizer que ia só ali e já voltava, foi coisa de amadores, a minha querida sogra levou a coisa a um nível profissional. Ora vejam, acordou e fez as coisas normais até à hora do marido sair para o trabalho, depois, com o relógio a contar todos os minutinhos e ainda sem nada fora do sitio, abriu a porta aos senhores das mudanças e esvaziou a casa de tudo o que era dela e/ou lhe apeteceu. Para pôr a cereja no topo do bolo, levou a caderneta do banco e esvaziou-lhes a conta conjunta. Ao final do dia, o marido nº2, em vez de encontrar a mulher, encontrou uma notazinha a dizer adeus. O divórcio, uma data de tempo depois, foi assinado com uma procuração.

Amável a minha sogra, não é?

Histórias de família

Ou de como o real às vezes parece guião de novela mexicana.

 

Correndo o risco de me expor demasiado ao explicar meia história de família, a ver se consigo fazer aqui um bom retrato que vos dê a dimensão real de eu ter duas sogras - como se uma só não bastasse.

 

A Sogra (mãe do Coiso) regressou um dia a casa para descobrir que o marido já lá não estava, que deixou as gavetas vazias e com ele levou o que lhe interessou. Deixou uma casa disfuncional, uma mulher abandonada e três crianças que, no meio desta confusão toda, tiveram que se contentar com o que havia e crescer num mundo que não lhes foi justo. Sei muitas coisas deste casamento interrompido. Não só porque ouvi de várias partes as versões que lhes convinham, mas porque quis um dia, que um familiar me desse uma caixa cheia de fotos e papéis - coisas velhas, muito velhas, que eu adoro - onde, por acaso, estava um monte de cartas escritas piedosa e apaixonadamente, cheias de detalhes e de lágrimas, pela Sogra (mãe do Coiso) para o Sogro, e que nunca chegaram ao destino. Curiosamente, cartas que foram escritas para esta sogra, também nunca lhe chegaram às mãos. Pelo caminho, cartas de irmãs para irmãs, de mães para filhas. Esta caixa, abandonada num sótão da Avó do Coiso, chegou-me às mãos, provavelmente, sem se saber o quanto de uma vida lá estava dentro. E eu também nunca me desfiz, a não ser na partilha com o Coiso. Muita coisa ficou explicada, acreditem.

 

Por exemplo, a forma como a Avó do Coiso odiava a nora e o quanto conspirava contra a senhora. Com meio mundo e com toda a garra, a mãe do Coiso era o centro das atenções e claro, quando o filho abandonou a nora, esta avó culpou a nora, que outro motivo seria válido para justificar que o rapaz fugisse para outro país, sem sequer dar cavaco? Daí a ficar com o Coiso e criá-lo como um filho e não como um neto, foi um pulinho.

 

Então temos, de um lado a mãe do Coiso que, de forma legítima - aceito, é sogra por direito e faz o seu papel de coitadinha para o filho e de diabo para mim. E depois, do outro lado, uma avó que criou o neto durante parte da infância e toda a adolescência e como tal, acha-se no direito de exigir o estatuto de sogra também. Afinal o "fui mais que uma mãe" é o lema da vida dela. Eu chamo-lhe a sogra 2. E quando uma anda mais sossegada, a outra lembra-se de puxar do pau da vassoura e picar o ninho. Às vezes... não há paciência.

 

Milhentas histórias que vos posso contar. Algumas, vimo-nos no meio das batalhas de Titãs entre estas sogras, noutras, é a ver qual das duas consegue ser mais mesquinha connosco. Enfim.

 

Agora para algo mais mexicano: a família da Sogra 2 (a Avó do Coiso), é amiga da família dos meus pais, desde sempre. Daí eu ser uma menina de colo da Avó e que mantive o estatuto de querida e fofinha e tal e tal durante dezenas de anos - até o meu namoro com o Coiso virar coisa séria e a Sogra 2 começar a olhar para mim não como a menina fofinha mas como a mulher-vestida-de-ladra que lhe ía roubar o neto de casa. E a minha vida começou a ser inundada com o seu fel.

 

Já levava 5 anos de namoro quando tive forçosamente que me mudar para a capital e embora de início estivesse num apartamento alugado, estava só e longe do centro. A Avó do Coiso tinha um quarto vazio e na altura convidou-me para ir viver para lá e sempre estaria no meio da família. Os meus pais concordaram e eu passei a pagar à avó o valor de renda que pagava no apartamento e a fazer as compras da comida para 3 (eu, a avó e o Coiso), algo que não me incomodava. Por ter tido uma educação muito rígida (e que eu agradeço, acreditem), achei que estaria no meu dever fazer as tarefas da casa - a avó trabalhava 12 horas diárias e eu tinha as manhãs semi-livres. Limpei, lavei e passei a ferro. Fiz refeições e quando a avó chegava, verificava a casa, passava os dedos na mobília e criticava o napron mal esticado na cómodo ou a camisa mal estendida ou a sopa muito grossa, ao jantar. Enfim, havia sempre o que criticar. Eu ficava sentida, mas calada. Era miúda, estava ali para estudar e sentia-me sortuda por poder estar com o Coiso, ainda que não dormíssemos no mesmo quarto.

 

A tal família da sogra 2, amiga desde sempre dos meus pais, começou a olhar-me de esguelha, deixei de ser a menina querida e fofinha e passei a ser tida de ponta e a cabeça do Coiso a levar a lavagem de que eu não era boa rés para ele. Um dia apercebi-me: a avó andava a contar cenas mirabolantes que tinham de tudo: que ela era escrava, que eu obrigava a que o jantar fosse o que eu queria e ela vinha cansada e ainda tinha que cozinhar, que ela tinha que limpar a porcaria que eu deixava e que eu era mal-educada. Inclusive que eu estava ali de graça e que os gastos da comida eram demais para ela. O típico guião de novela mexicana. Eu soube por acaso. Calhou ouvir uma conversa paralela e fui tirar os meus nabos da púcara.

Chegou aos ouvidos dos meus pais e claro, quem não vê não sabe, estamos a falar de coisas com 20 anos (sem telemóveis e afins) e a ordem foi que largasse tudo e voltasse para a aldeia, JÁ!

 

Eu não queria acreditar no que os meus ouvidos deixavam entrar quando uma das tias do Coiso me contou as atrocidades que andavam a soar sobre mim. Impressionante as histórias rocambolescas.  Não tive outro remédio. Comprei um daqueles gravadores pequeninos, de jornalistas, enfiei-lhe uma cassete, coloquei num bolso e enfrentei a fera.

Sentada na cozinha com ela, perguntei-lhe se gostava que eu estivesse ali em casa. A resposta cor de rosa e cheia de mimo que deu, a ajuda preciosa que era, a casa e roupa sempre impecável, o jantar pronto quando ela chegava, o Coiso feliz, a ajuda que era o dinheiro da renda e a comida que eu estava sempre a comprar... tudo, direitinho, saiu daquela senhora. E eu gravei. E depois fiz-lhe a questão directa "porque andou então a dizer a toda a gente o contrário? Isto e aquilo e tal?" Ui. Até chorou a dizer que era mentira e que nunca tinha dito tal coisa, que as pessoas são más e que querem é que o neto a odeie e o rosário todo de maldades que lhe fazem. Que a irmã Xpto é que é a má da fita, que ela é que envenenou os meus pais e por aí a fora.

 

Sei dizer-vos que foi muito complicado para os meus pais ouvirem a tal cassete. Porque é muito mais fácil acreditar-se numa avozinha querida que numa miúda universitária. Que tive que implorar que ouvissem a cassete. Mas quando a ouviram? O mundo desmoronou e eles perceberam muito bem as tramóias que vinham dali. Por mim, estava esclarecido o assunto com os meus pais, estava bem. Mas o Coiso decidiu que eu não havia de ser a má da fita e num daqueles almoços de família bem recheado, a meio da sobremesa, resolveu colocar a cassete alto e bom som.

Novela mexicana, estou a dizer-vos: uns levantaram-se e abandonaram o local, outros cochichavam, outros ripostavam uns com os outros, a Avó chorava as mesmas lágrimas de crocodilo de sempre e eu, fiquei quietinha a observar enquanto me apeteceu. Depois pedi para ir para casa e saí.

 

Mudei de casa, óbvio. E o Coiso também. Foi viver comigo.

 

As coisas nunca mais foram as mesmas, é certo. E os meus pais perderam a ligação forte que tinham com os amigos, ficando uma coisa mais... nhec. A Avó virou uma Sogra 2 com a bagagem toda apetrechada mas eu já estava preparada. Houve alturas que se juntaram as duas sogras contra nós, outras que tiraram à vez.

 

Dou gargalhadas cada vez que me recordo da cara da sogra 2 ao ouvir a cassete.

 

Entretanto, 20 e tal anos já se passaram e muita história já aconteceu. E ela sabe que comigo não faz farinha. Mas tenta. E prevejo que vão ser umas férias engraçadas... oh, se vão...

Não tenho feitio para ser o que não sou

E esta minha máxima serve para tudo. Para o bem e para o bem, que eu cá não sou de viver no mal.

 

O Coiso deu um mega sermão à irmã mas o leite já estava derramado. Entretanto, porque na nossa vida nada é como nos filmes e as legendas nem sempre são direitinhas e com a ortografia toda [politicamente] correcta, a Sogra não vem. Mas vem "a sogra número 2". Eu tenho duas. É inevitável aceitar esse facto.

 

São 83 anos de muita luta, de muita aspereza e com muita arrogância. Nem puxo o tópico da mania de ser a melhor. MAS... também são anos de final de vida, de arrependimento e de desculpas que foram pedidas a seu devido tempo, que desculpa tem sempre tempo infinito para se ouvir.

 

As minhas moças gostam desta bisavó. Conhecem-lhe a história e sabem que em tempos foi pessoa que não fez parte da família e que o Pai não se lhe permitia nem a referência. Mas sabem também que esta bisavó correu o mundo para recuperar o neto e tentar ser parte da sua vida. E eu tenho que aceitar. Independentemente de estar perdoado mas não esquecido.

 

O que me espera? Uma mistura de carinho com alguém que nunca vai perder a habilidade de ser falsa, de ser acusatória e de ter bipolaridade no que concerne à minha pessoa. Daquelas que está tudo muito bem mas que na confidência com os outros, há sempre uma crítica, uma malícia.

 

Se vale a pena quebrar o meu sossego? Deixem-me colocar a questão de outra forma: Eu não sei ser o que não sou. E não sou rancorosa. E também não sou má. E já passei muito na vida, já antevi muitas vezes o fim da linha e já segurei nos braços muitas vezes finais de linha de quem nem teve tempo de reconsiderar.

Não concorro ao prémio "Pessoa do Ano", e muito menos faço questão de palmilhar a passadeira vermelha dos "É uma pessoa de bem Awards". Mas sou eu: aceito que as pessoas se esforcem para mudar, para gostar, para recuperar uma vida familiar. Gosto de acreditar que consigo ver e fazer sobressair o que de bom possa-lhes assistir dentro de um coração de pedra e fazer disso o suficiente para dar-lhes novas oportunidades.

Não me iria sossegar o negar tempo de vida com a família, a esta pessoa que, afinal, as moças até estimam. E eu também, às vezes. Quando a bipolaridade da sua forma de ser me aceita como sou.

 

Um dia conto-vos as maldades desta sogra 2. E também a reviravolta que foi no dia que a confrontei por a + b e lhe demonstrei que na minha vida familiar, não se brinca. No porquê da ausência dela na nossa vida durante 8 anos, conhecendo as bisnetas já elas sabiam ler e escrever.

 

Para já, respiro fundo e aceito. Tenho muito mais em que pensar do que no sentimento de quase incómodo que sei que sentirei. Por agora, reviro os olhos mas sigo em frente. Hei-de ter paciência.

E sabem que mais, hei-de ter muito que contar. Ainda são 15 dias e muito braço de ferro pela frente.

 

Seja.    

 

PS - Sabiam que esta Sogra 2 é Sogra da Sogra? Muito bom... Elas têm uma picardia uma com a outra, digna de ser relatada!

Este post não é sobre sogras...

Este post e um agradeciemnto ao ou aus nossos comentadoures anonimos, que perdem preciósos minutos das suas ocupadas vidas a corrijir os testos deste blog. Nunca pensamos vir a ter revisoures de testo tao sedo! Istamos muito grátas, a sériu. Prumetemos nao nus esquécermos de vos nos agradecimnetos do noso primeiro livro. Love you guys!!

 

[Pedimos desculpa pela interrupção na programação habitual. :D]

Teorias da conspiração.

Como já se deve ter percebido, nós não nos damos com a minha sogra. Foi uma escolha nossa e foi a escolha acertada, aumentou o nosso nível de paz em 500% e permitiu-nos ver a realidade com mais clareza. Depois do episódio que estabeleceu o nosso limite de paciência, as comunicações foram abrandando até que a um certo ponto cessaram por completo. Durante algum tempo ainda houve comunicação indirecta, mas também isso acabou à medida que nos tornamos cada vez mais selectivos na escolha das pessoas com quem partilhamos a vida. 

A linha estava muda há imenso tempo, quando no dia de natal do ano passado (recordar que a minha sogra odeia o natal) o Homem recebe um mail da irmã (a minha querida cunhada cutxi-cutxi, gosto tanto dela pá!!!) a mandá-lo ligar para a mãe, que ela estava muito triste porque não sabia nada dele. Noutros tempos esta mensagem teria causado distúrbios na nossa paz, mas desta vez não, depois de 5 minutos de conversa sobre a distinta lata de (provocatoriamente) enviarem o e-mail no dia de natal e não em nenhum dos outros dias do ano, incluído aniversários do Homem e dos miúdos, foi só fazer delete e o assunto ficou resolvido. É que ao comum dos mortais, um pedido de contacto num dia de festa normalmente celebrado em família, pode apelar ao bom coração e tal, mas depois de todas as contas feitas, já não há bom coração para apelar, o bom coração está protegido por um filtro anti-provocação e anti-falsidade e anti-bullshit.

Passado uns tempos foi uma mensagem no Facebook do Homem, enviada pela (ou da conta da) sobrinha mais velha (filha da minha querida cunhada cutxi-cutxi, esse amor de pessoa!) a dizer qualquer coisa como "Querido tio, finalmente encontrei-te no Facebook! Tenho tantas saudades tuas!", num tom não impróprio para a idade/personalidade da mocinha que a falsidade era quase palpável. É que no Facebook nem vale a pena, a sério que não, até podem tentar, mas só acrescentam mais uma linha à lista de perfis bloqueados, mais vale gastarem o tempo a ir beber uma bica ao café da esquina.

Depois foi a tia. A tia (pela qual eu ainda tenho alguma consideração, apesar de a achar autocentrada a um nível altamente irritante) liga ao Homem para aí duas vezes por ano, no aniversário e no natal. Durante as chamadas (que são sempre à pressa) só costuma falar dos filhos e marido e contenta-se com a pouca informação que o Homem lhe transmite. Se o Homem calha a não lhe atender, a chamada passa para a época festiva seguinte. Desta última vez, porém, continuou a insistir até conseguir falar com ele. E para além da insistência atípica, também mudou o discurso, mencionando pela primeira vez o facto do Homem não se dar com a mãe, dizendo que Ah e tal, a tia só quer saber de ti e podes contar tudo da tua vida à tia que a tia não vai dizer nada à tua mãe, frase que obvia e claramente quer dizer o oposto e que nos põe já de sobreaviso.

E ontem foi outra. A mulher do primo (filho da tia de que falo no parágrafo anterior) e que pouca interacção tem connosco desde que nos mudamos para o estrangeiro, ontem lembrou-se que nos queria vir visitar em Junho. Embora atribua a manifestação desde desejo à falta de noção e aos altos níveis de parvoíce (e lata) da alminha em causa, a forma directa como abordou o assunto e a rapidez com que se despediu depois de saber que não tinha sorte nenhuma, fazem-me questionar se não seria uma típica tentativa de tirar nabos da púcara, ou a pedido da minha sogra (até já a estou a vê-a a pagar-lhes os bilhetes) ou quiçá a pedido da minha querida cunhada, essa alma tão caridosa, que depois de ter andado a espalhar a toda a gente que a mocinha era uma parvinha-sem-sal porque o namorado (primo - filho da tia de que falo no parágrafo anterior) andava sempre metido com outras e ela não fazia nada, ah e tal até parece que gosta, não hesitou em ir arranjá-la no dia do casamento cheia de sorrisinhos e palmadinhas nas costas. Chamar-lhe capra aegagrus era pouco. 

Tudo isto me passa ao lado, já lá vai o tempo em gastava minutos preciosos a analisar estas mesquinhices, estas tentativas de saber mais qualquer coisa, estas provas irrefutáveis da vida pequenina e desocupada desta gente... A única coisa que me aborrece é que não desistem e bolas, já podiam desistir.

AQUELE telefonema

Pronto. Tinha que ser.

Se eu estava à espera disto? No fundinho da minha consciência, sim. Claro. Se estava preparada? Não.

 

Viver noutro país - ou se quiserem, ser emigrante, tem muito que se lhe diga. Principalmente no que toca à parte em que muita gente de repente acha imensa piada ao estarmos no local xpto e olham para nós como aqueles familiares favoritos ou mesmo os melhores amigos de sempre (dantes éramos apenas "pessoas") ou se quiserem melhor termo: "temos onde dormir e comer de graça se formos ao país xpto". Isso é que era bom. Com a distância vem outro atributo: o discernimento.

 

Vai daí que toca o telefone. Era a cunhada. Se fosse a Sogra, sei que "ninguém" tinha ouvido o telefone. Mas a cunhada sabe muito e sabe que o irmão atende sempre.

 

Ela - A Mãe agora chora muito e quer estar contigo. Tem muitas saudades, não te vê há mais de um ano.

O Coiso - Mas normalmente passava mais de um ano sem me ver e nunca lhe afligiu. Deve ser algum achaque novo.

Ela - Não sejas assim. A Mãe está com muitas saudades e precisa estar contigo.

O Coiso - Sim. Vou estar aí em Agosto, poderá ver-me nessa altura.

Ela - É esse o problema. Vai passar o mês de Agosto em França, por isso não pode estar contigo.

O Coiso - Olha, problema dela. Já lhe tinha dito em Janeiro que íamos em Agosto. Marcou viagem porque quis. Fica para a próxima.

Ela - Por isso é que te estou a ligar. Comprámos bilhete para ir passar férias contigo, em Julho. Tens é que a ir buscar ao aeroporto. Fica 12 dias em tua casa, ok?

O Coiso - Compraste bilhete? Sem me perguntares nada? Anula o bilhete. Já.

Ela - Não posso. Já paguei e não é reembolsável e custou um dinheirão. Faz lá o jeitinho. É nossa mãe. Tem saudades tuas. Qualquer dia morre e ficas repeso.

O Coiso - Anula o bilhete, muda o destino faz o que entenderes. Aqui para casa, não vem. Ninguém me perguntou nada.

Ela - Por favor... não sejas assim.

O Coiso - Tudo bem. Queres que ela venha para aqui? Que venha. Eu marco-te um hotel baratinho. Mas que não pense que vem abancar na minha casa.

Ela - Vou falar com ela. Depois digo-te alguma coisa mas olha que não faz tensões de gastar dinheiro... diz que teve o filho e que agora é hora de ser o filho a tratar dela.

 

O meu Coiso desligou. Não sem antes dar-lhe o belo do sermão e óbvio que não conto aqui as calinadas no calão e outras frases menos politicamente correctas.

 

Na manhã seguinte (ontem), ligou-me a mim. A cunhada. Para que intercedesse no assunto.

Desta vez fui fiel a mim própria e peremptória na decisão.

Eu - Temos muito gosto em recebê-la para jantar enquanto cá estiver de férias. Acho que o Coiso até pensou num hotelzinho que não é muito longe. E vai enviar-te qual é o comboio que deve de apanhar do aeroporto até aqui. Ainda são quase duas horas. Agora, nem sonhes que vem para aqui ficar. Temos a nossa vida, trabalho, escola e a casa está desenhada para nós. Ponto.

Ela - ...? Então e como é que lhe vou dizer isso? Já viste bem, não é muito normal o filho não a querer em casa dele!

Eu - Olha, o que não é normal é terem feito esse esquema todo e ninguém nos ter querido saber ou achar opinião. O que não é normal é a senhora minha sogra despachar o filho para a casa da Avó durante a vida inteira dele, visitá-lo quando o Rei fazia anos, nunca querer saber das netas ou mesmo de nós e agora de repente, achar que pode vir de férias às nossas custas e estar na maior. Ela que faça o que sempre fez quando vivíamos aí: Ignorem-nos. Esqueçam-nos.

 

Parece-me que não vai ser fácil. E que no final, vou acabar por ter que alojar a senhora. É que o meu coração é demasiado mole. Demasiado. E sei que o dele também não será muito menos.

 

Lembram-se do Fernando Pessa? "E esta, hein?"

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