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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Insatisfação geral.

Tenho andado a dormir mal. Pensei pedir à minha sogra para me fazer a tal cena do azeite, mas depois pensei que tirando a própria, não deve haver muita gente a olhar-me de lado. O processo implicaria um claro conflito de interesses, para ela, obviamente.

Quando não durmo bem muitas noites seguidas fico assim para o mal disposto. Rabugenta, pronto. Mas nada que se compare à minha rica sogra. A minha sogra está sempre mal disposta, sempre. 365 dias por ano, 366 nos anos bissextos.

A insatisfação da minha sogra com o universo em geral manifesta-se das mais diversas formas, muitas vezes passa só por ser embirrante, queixar-se disto e daquilo, mas há outras vezes em que é tão ridículo que se torna hilariante.

Por exemplo, a minha sogra nunca quer ir comer fora. Nenhum restaurante presta, são todos uma porcaria e não gosto e não me apetece e mimimi, quando finalmente se senta num come que nem um alarve. Quer vinho? Ai, não, que horror, vocês estão sempre a beber, são uns bêbados! Enche-se-lhe o copo e ela bebe. E depois repete. Quando sai do restaurante aquilo não prestou para nada, caríssimo, mal servido, o empregado mal educado. A vizinha pergunta-lhe como foi o almoço, ai jasus que foi o melhor almoço da vida dela! Mas isto é a versão light, quando ela quer efectivamente ir, mas tem de chatear sempre um bocadinho no processo. Quando ela vai contrariada é muito mais fixe. Estão a ver uma criancinha de 2 anos cheia de sono num restaurante? Ela é pior, muito pior. Lembro-me uma vez num restaurante chinês que para além da tromba nº44 (algures entre o furioso e o enojado), embirrou com tudo, com a temperatura do ar condicionado, com a comida em si, bufava, mexia-se na cadeira, foi à casa-de-banho para aí 3 vezes e no final, depois de comer, rematou com a seguinte tirada "vocês só gostam de estar a falar à mesa, demoram muito tempo", levantou-se e foi-se embora, dar uma volta nas lojas do centro comercial, uma coisa muito mais útil do que comer sobremesa e beber um café com as pessoas que não via durante grande parte do ano. Voltou depois da conta paga (just sayin').

Depois havias as vezes em que nos convidava para almoçar. O primeiro passo era logo afirmar a trabalheira que aquilo tudo tinha sido, ai que estava tão cansada, já nem se aguentava nos pés. Uma pessoa fica logo a sentir-se bem-vinda e com vontade de ali estar! Depois era tudo a despachar, tipo comer a correr (mesmo que fosse Domingo ou altura de férias), que ela tinha de arrumar tudo para ir à vida dela. Atentem que nós somos pessoas pontuais, que somos, mas com uma criança pequena às vezes há imprevistos e um dia lembro-me que chegamos tipo 20 minutos depois do combinado, já tinha almoçado. Tão simples como isso. Chegou a hora dela, almoçou, o resto que de lixe.

Outra manifestação da insatisfação da minha sogra com o mundo é a maneira como se comporta dentro do carro. Ela não tem carta mas tem sempre opinião. Se vais devagar devias ir mais depressa, se vais mais depressa é porque devias ir mais devagar, que vais apanhar uma multa ou acabar espatifado contra um muro. Numa viagem mais comprida então é brutal. Precisa de parar em todas as áreas de serviço, literalmente todas, para ir à casa-de-banho, para beber, para comer, para chatear, é conforme. Depois a impaciência é tal que não está quieta no banco, levanta-se, ajeita-se, põe o joelho para baixo do rabo, cruza as pernas, descruza as pernas, uma alegria para quem vai ao pé dela. Se vamos a conversar quer ligar o rádio. Se vamos a ouvir música quer falar, ou canta, que ainda é pior. Quando finalmente chegas ao destino a cabeça já está tão cansada que só te queres vir embora, mas espera, isso ainda é pior, porque tens de levar com o filme todo outra vez!

 

Mas isto que vos conto hoje não são episódios isolados, isto é uma forma de estar na vida, que com mais ou menos intensidade se manifestava todas as vezes que estávamos com a alminha. Não me lembro de um único dia sem reclamações ou queixas, estava sempre qualquer coisa mal, sempre. O que me custa no final das contas, é que a vida dela até era porreira, tinha pessoas, trabalho, casa e dinheiro para gastos, passeava, viajava e comprava o que lhe apetecia, mas estava sempre insatisfeita. Caramba, eu até posso ser uma pessoa tolerante, mas se há coisa que me irrita é gente que cospe no prato  em que come e a minha sogra é exactamente assim.

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