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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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O meu luxo

No que toca a Sogras, feitios, atitudes, respostas e comportamentos, na minha opinião, nunca há conselhos que sejam suficientes ou adequados, de forma generalizada. Como eu reajo, como respondo, como me revejo nesta relação, acaba por se adequar a mim, à minha forma de estar e ser, quando muito, partilhada com a postura que o meu marido tem.

 

O meu marido distanciou-se bastante da mãe, ainda novo, por força de circunstâncias das quais não teve dizer ou querer. Isso ajuda um pouco na forma de olhar para as atitudes da mãe e na forma de entender as minhas próprias reacções. Mas na verdade, a mim não me faz sentido nenhum viver assim, com meia família tão chegada e outra meia família tão afastada.

 

Mas como em muita coisa na vida, que não depende só de nós... neste assunto acabo por pouco ter a dizer ou até mesmo de querer, na realidade.

 

Eu fui educada numa familia grande, unida, cheia de pessoas que realmente gostam de estar juntas, que estão lá uns para os outros. E era isso que eu achava - na minha inocência - que existia em todas as casas. Devia ter uns 10 anos quando me apercebi que não era assim tão simples e que nem todas as família tinham a sorte de estarem juntas. Mas a funcionalidade da minha família continuava-me a ser preciosa e a querer perpetuar essa forma de viver, quando tivesse a minha própria família. Queremos todos, certo?

 

E é isso que no fundo custa-me. Dos meus avós paternos nunca tive a felicidade de conhecer, partiram antes de eu nascer. Mas tinha 14 tios e tias paternas que faziam um pouco de avôs e avós. Mas conheci os maternos e amava-os com muita sinceridade. Passava largas férias com eles e os meus irmãos sempre vinham passar alguns momentos comigo, mais os meus sobrinhos (vantagens de ser a mais pequena de uma familia grande). As reuniões de família eram cheias de gente boa e na verdade, a noção de família cultivou-se em mim com essa imagem: uma enorme quantidade de pessoas que nos amam, a rodear-nos.

 

A vida levou-me para longe da família, mas ao criar a minha própria família, e estando na mesma cidade, no mesmo bairro que a família do meu marido, dava-me um certo conforto mental e sempre achei que na falta da minha metade, as minhas filhas teriam sempre a família do pai por perto. Mas não tiveram. Nem têm.

 

A minha sogra nunca foi de ter grande paciência para ter as netas com ela. Eram moças sossegadas mas que gostavam de actividades que envolvessem criar, fazer, modelar, pintar, colar, enfim. Nunca quiseram jogos, nunca tiveram playstations e tretas dessas mas carregavam as suas mochilas com lápis, canetas, folhas, livros, tesouras, colas e afins. E como qualquer outra criança, só queriam alguém por perto para ajudar no processo criativo, na companhia. Isso dá trabalho, requer atenção. E a Sogra não tem paciência. Quer mesmo é que elas se colem à TV e pronto. Mas como com as minhas isso não é forma de estar, elas não queriam ir para a avó; a avó não as queria lá.

Isto, claro, já elas tinhas mais de 4 anos. Antes disso, nunca ficaram com a avó 10 minutos que fosse, sem um de nós. O mais curioso? É que a Sogra é professora primária. E então, a desculpa é que já atura muitos meninos, não tem já grande vontade de ainda fazer actividades com as netas.

Também não subia a rua para ir ver as netas. Mas fazia todos os fins de semana, 100 km para ir ver a neta, do lado da filha.

Também não telefonava para lhes dar uma palavrinha. Mas liga todas as semanas para os primos em Angola.

Por mais incrível que pareça, as minhas moças têm uma ligação especial com a minha família, a 300km de nós, na altura. Amavam ficar com eles, identificam-se, e estavam muito mais com eles do que com esta avó, que morava já ali.  

 

As moças foram crescendo. Hoje são adolescentes, uma já segue para o ano para a Universidade. E é uma pena que não saiba o que é ter duas avós, dois avôs. Ou 6, se fizer bem as contas, já que ambos os meus sogros já ataram e desataram umas quantas vezes e elas já conheceram avôs a mais. Mas parece que nenhum deles quis partilhar muito das suas presenças. E elas ressentem-se.

 

Por mais que ache porreiro ter esta capacidade de me distanciar, de perdoar as suas atitudes e até esquecer as mil e uma coisas que já tentou para me separar do meu marido, é a falta de avó de jeito para as minhas moças que me incomoda. Porque vendo a coisa a frio, do que tem ela medo, para agir assim? É só maldade? É ruindade? É ciúme?

O que esperam as sogras que são assim? Que os filhos vivam debaixo das saias delas e que sejam castos e solitários, respondam "sim, mãezinha" e abanem a cauda como cachorrinhos? É para isso que os educam, que os querem diplomados e independentes? Não entendo.

 

Uma vez disse-lhe: "D.Sogra, não estou a retirar-lhe protagonismo nem pretendo substituí-la. Sou mulher do seu filho, não mãe, pretendo respeitá-lo sempre e gostaria também de respeitá-la. Mas para isso, preciso que também me respeite." Para variar, não me deu resposta, encolheu os ombros, rebolou os olhos e virou costas. Mas eu disse o que precisava. Meio encolhida, pernas bambas e de voz trémula, à beira da lágrima. Mas disse. Que raio de medo é este, de tal pessoa? Será que é dela ou do que representa a sua força nos nossos maridos?

 

Ouvi-a dizer uma vez que o meu marido não durava muito ia à procura de comida fora de casa. Fiquei tão parva que nem respondi. Nessa noite, disse ao meu marido. Resposta dele? "Tu é que insistes que as meninas precisam de conviver com a avó. Eu, por mim, não vejo vantagem nenhuma".

Mas isto, como vos digo, é o meu caso. O caso de um filho que cedo aprendeu a lidar com as acções de uma mãe "não muito certa". Mas compreendo que nem todas podemos agir da mesma forma. Como a minha irmã. Que para o marido, a mãe dele é o suprasumo da coisa e nunca faz ou diz nada errado. Pois não. Claro que não.

 

Enfim. Estamos quase na Páscoa e ainda ontem ouvi dizer que a culpa do meu marido não ir passar a época com a mãezinha, é minha. Porque eu prendi-o com 3 crianças e o filho é obrigado a trabalhar e não tirar férias para alimentar os meus luxos.

É verdade.

 

Viver assim tão longe dela (agora são qualquer coisa como 5000 km), é um luxo. Ouvir o meu marido dar uma gargalhada ao ouvir isto e a responder-me que mais depressa iamos passar as férias nas Caríbas, é outro luxo.

 

Um luxo chamado paz de espírito.

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