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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Do respeito

Eu sou uma pessoa pacífica. Muito.

Não gosto de confrontos, não me identifico com conversas brejeiras nem sou pessoa de usar palavrões nos meus diálogos. [Não sou de longe nem de perto uma santa, e também sei dizê-los se a situação o exigir. Tenho é um limite muito definido e não vejo vantagem em usar tais palavras de forma leviana. E detesto gritar.]

Gosto, portanto, de estar em momentos de harmonia, de usufruir de paz de espírito mas também - e principalmente! -, de bom ambiente familiar, onde possa sorrir com vontade e sentir-me bem. De me identificar.

Durante alguns anos, isso não era a regra na minha vida. Vivia essencialmente para agradar só aos outros, tentando manter o equilibrio entre o que a Sogra achava ser bom para nós, casal, e o que eu identificava ser o que NÓS pretendíamos para a nossa família, a dar os primeiros passos.

Nesses primeiros anos, ouvi e calei mais do que devia, senti na pele mais do que me deveria ter permitido, sorri em demasia aquele sorriso forçado e amarelo, falei baixo de mais, tolerei em demasia. E não só o tolerar de bitaques e opiniões da Sogra mas também a defesa inocente do filho que, com a história de que a Mãe já estava meia "maluca" da idade ou que já não sabia bem o que dizia ou fazia, eu deveria ignorar, esquecer, não levar a sério. Só que em situações em que me sentia humilhada - algo que a Sogra gostava de fazer como prática corrente em eventos familiares, em salas repletas de familia do lado dela e seus amigos -, ele raramente me defendia no momento, muitas vezes porque nem se apercebia, não estava presente no momento ou porque não se estava para dar crédito às atitudes da Mãe.

Com a segunda filha veio o inevitável dom da Sogra achar que podia e devia se intrometer ainda mais na nossa vida. Afinal, ela própria Mãe de 3, sabia muito melhor que eu, criar e educar. Sabia muito melhor do que eu o que as minhas crianças gostavam, como se sentiam e ainda para mais, achava que se ela a meio do dia se lembrasse de ir ver o bebé, tinha que a acordar, a criança tem que ver a avó e ponto final. Assim como em todas as festas que ela organizava, nós tínhamos que ir obrigatoriamente, para mostrar as crianças ao tio xpto e ao primo ztx porque veio da Conchichina e tem que conhecer as crianças. E venham bem vestidinhas, para ficarem mais amorosas. Para mostrar aos outros.

E houve um dia que caput. Deu-se um clique qualquer na minha inteligência e eu amadureci, cheguei ao limite, ganhei respeito por mim e pelas minhas crianças e decidi que elas não eram nenhum animalzinho de circo para estarem em exposição e que nós, casal, não temos que andar ao som do tambor da Sogra.

Respeito. Foi isso que eu decidi que queria para mim. 

Se eu podia ter pela Sogra o respeito que lhe era devido, então, exigia para mim o mesmo respeito que tinha direito. Até porque acima de tudo, EU merecia que Eu tivesse respeito por mim mesma.

Comecei por falar com o meu marido sobre isso. Não no sentido de apontar defeitos à Sogra, nem sequer de falar mal dela ou das suas atitudes. Aprendi com o tempo e, já tínhamos 8 anos de casados, que, "atacar" a Sogra ao marido, dava mal estar entre nós e na verdade, é mãe dele, também não deveria ser fácil ter que lidar com a questão. Falámos num dia tranquilo, em tom de conversa amena, com um sorriso normal, como se falássemos de coisas banais. Disse-lhe que precisava sentir-me mais forte e decidida, mais mulher e mãe e que me colocava sempre em dúvida de ser boa pessoa, por todas as críticas que recebia de "outros". Que duvidava de estar a levar a nossa família a bom porto e que se o meu marido seria realmente feliz comigo. No tom de carinho, ouvi dele a segurança de que tudo estava certo e que eu devia de me desligar das pessoas que me faziam sentir mal, que nada têm que se meter na minha forma de ser como mãe e mulher e que eu deveria ter mais confiança em mim e respeito.

Aproveitando a dica, referi-lhe que "os outros" se resumiam à sua mãe e irmãs. Que me incomodava as suas atitudes e dizeres. Que me sentia infeliz nas reuniões de família dele em que era colocada no centro das atenções para ser criticada e julgada. Que o amava muito mas que não entendia porque tinha que pagar aquele preço. Que somos uma família mas que isso não significa que eu tenha que me sujeitar a um crivo que não faz parte do nosso núcleo de vida.

Talvez porque na altura a conversa foi realmente uma conversa e não foram atiradas pedras em nenhum sentido, correu bem. Eu prometi ter mais condescendência, ele prometeu estar mais atento, nós definimos que a nossa vida conjunta era muito mais importante que ter alguém de fora a dar palpites.

Resultou por uns tempos. De facto, ele começou a estar mais atento e a proteger-me mais dos discursos idiotas da Sogra e sua família. Mas eu continuava a tolerar estar em locais que me incomodavam, a ver e ouvir o que não me fazia sentido.

Planeámos a terceira, em conjunto com as duas que já eram grandinhas e foi uma época muito feliz para nós. O planear, o esperar, a primeira eco partilhada com as moças, o preparar a vinda da terceira... enfim. A felicidade e a benção partilhada por todos, ou quase. A Sogra não achou muita piada e dizia que era uma forma de eu o agarrar ainda mais, que isso só iria trazer mais trabalho ao filho, ter que alimentar 3 crianças e ouvi da boca da melhor amiga dela que 3 era para eu garantir que quando nos divorciassemos, tivesse pensão de alimentos suficiente para viver à grande. E foi aí.

Foi aí que eu decidi que não estava para isso. Que tinha que me respeitar, de uma vez por todas. Que sou gente e que tenho dois palminhos de testa e não preciso destas energias de roda de mim.

Sem controvérsias nem mau falar, sem tons de voz alterados ou mau feitio, informei o meu marido que não tinha qualquer intenção de conviver com a Sogra. Que sou grandinha, livre e tenho vontade própria: posso simplesmente escolher não ir, não partilhar, não conviver. Que não me fazia qualquer diferença que ele continuasse a ir aos almoços de Domingo, aos jantares de sábado, ao que quissesse. Que as filhas podiam acompanhá-lo se quissessem ir com o Pai. Mas que eu, simplesmente, não iria.

Que a nossa casa é local sagrado, nosso, ninho nosso. E como tal, a mãe dele, tal como a minha desde sempre, vinha a convite e não de supresa. Que vinha para estar em comunhão, não para criticar ou mandar. Que nas nossas filhas, opinamos nós os dois, ponto final.

Não fiz qualquer tipo de ameaça ou contrapartida. Não lhe disse que seria Ela ou Eu. Disse-lhe apenas que merecia estar em paz comigo e respeitar-me. E como tal, ela lá, eu aqui. Ponto.

O Coiso entendeu, aceitou e seguimos em frente.

Houve momentos em que eu fui porque achei que valeria a pena. (Não valeu) Outros que simplesmente fiquei a deliciar-me no sofá com um bom filme e uma tijela de Nestum, enquanto eles foram. Nunca me senti revoltada por ele aceitar os convites dela e ir. Pelo contrário. Senti paz por saber que não o estava a privar da mãe mas também não estava a ir contra o meu bem estar. (Aliás, no terceiro casamento, foi só ele, as moças não quiseram ir, tal foi a palhaçada da situação - um dia conto...)

E um dia disse-lhe. Um dia ela teve a lata de me confrontar num almoço de família, da avó do meu marido que fazia 80 anos, no meio de muitas, mesmo muitas pessoas, porque a tinha abandonado e não queria que o filho e netas a vissem. Fiz questão de - calmamente - elucidá-la. "Não tenho nem nunca terei poder ou querer para que o seu filho não a visite. Assim como faço questão que quando o faz, incite as filhas a acompanhá-lo. Agora, não espere que eu vá de livre vontade, conviver com alguém que faz questão de me criticar, de dizer que não aprova a minha pessoa, de julgar-me abaixo de tudo e todos e que não sou suficiente para o seu filho. Eu não preciso de gostar de si, nem a Sogra precisa de gostar de mim. Viva a sua vida, eu vivo a minha, com o meu marido e filhas. Se respeitarmos os limites da convivência uns dos outros, todos somos felizes e vivemos em paz". Gostei do silêncio que se seguiu. E do "muito bem" que a matriarca da família, a avó, resumiu a conversa e retomou a celebração do almoço.

A partir desse momento, eu senti-me finalmente livre da obrigação de ter que gostar da Sogra. E parece-me até que consegui desligar-me e distanciar-me o suficiente para que as coisas me atinjam no presente de forma diferente.

O meu marido aceitou bem esse distânciamento. Talvez porque com o tempo começou a compreender e a ver o que a casa gasta e ele próprio começou a distanciar-se. O tempo encarregou-se de demonstrar que nós temos que ser unidos os 5, sem interferências do exterior.

E coitado, sofreu tantas mazelas com atitudes dela que, com o tempo, começou ele próprio a respeitar-se mais e a perceber que dali nem sempre vem boa coisa.

 

Eu? Eu com honestidade ainda não ultrapassei/esqueci algumas mazelas mais fundas mas perdoei todas. Não adianta ter rancor no nosso coração. Alimenta más energias e faz-nos amargos. E isso, não adianta de nada. Nadinha.

Quero mais é ser feliz. E na receita da felicidade, não vem nenhum ingrediente de rancor ou remorsos. Não vem tristezas velhas nem feridas abertas. Então cabe-nos a nós próprios resolver e colocar essas coisas de parte e construir a nossa felicidade.

 

Respeitar-nos.

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