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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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A minha sogra é uma bruxa.

[Um aparte antes de continuar, para dizer que não tenho nada contra qualquer tipo de crença, cada um faz o quer quer da vida e acredita no que lhe parece justo, pra mim, o limite está no interferir com o próximo. Se o que se pensa/faz não fal mal a ninguém, então está fixe, sem stress, keep calm and carry on. Sou anti-violência e anti-fundamentalismo, de qualquer espécie e sem excepção. Não podemos gostar todos de amarelo é isso até é uma coisa boa. Na minha família, não me lembro de haver grandes conversas sobre estas coisas. A minha bisavó de vez em quando queimava umas ervas lá por casa, mas era tão esporadicamente que nunca foi relevante. A minha avó gosta de talismãs: patas de coelhos, cavalos marínhos e santinhos vários. A minha família sempre foi católica não praticante e mais para o reservado. Gente da capital, sem grandes tradições populares passadas de geração em geração. E eu cresci exposta a muita informação mas sem nenhuma tendência para acreditar em nada especifico.]

 


Certo dia a minha sogra disse-me que a nossa vida não podia correr bem porque havia alguém da minha família a "fazer-nos mal". Foi nessa altura que descobri que a minha sogra (e a rica filhinha) ia ao bruxo. O bruxo era o maior, sabia tudo, um poço de conhecimento e bom senso, que as guiava na vida directamente de um apartamento na linha de Sintra.

 

Um dia levaram-me lá e eu, que gosto de experimentar para poder dar a minha opinião com conhecimento de causa, ouvi o que o tipo tinha para dizer. A coisa foi profunda, entre outras pérolas que não me recordo, disse-me que íamos mudar de casa e seria normal se a minha relação com o Homem tivesse uma crise aos 7 anos (?!). Também me disse que não me via a morrer em nenhum acidente, parte na qual eu espero que ele tenha acertado. Sai de lá como entrei e obviamente, nunca mais lá pus os pés. Não sei o que é que aconteceu com a "pessoa da minha família" que nos andava "fazer mal", deve ter desistido entretanto porque a minha sogra nunca mais falou do assunto. Volta e meia lá vinha a conversa, mas o Sr. xpto disse-me para fazer assim e elas faziam, mesmo que, claro, fosse a maior atrocidade possível. O meu desinteresse pelos conselhos do bruxo deve ter sido uma das razões porque não gostavam de mim, só pode.

 

Entretanto os anos foram passando, chegou a Miúda e na barreira dos tais 7 anos, o Miúdo.

 

Quem nos conhece sabe que não somos muito stressados com as pequenas criaturas, exigimos que se comportem [sempre] educadamente, mas como crianças que são podem fazer o que lhes compete, correr, brincar e por ai fora. Também não stressamos com comidas e horas quando estamos em situações sociais, em casa há regras, na rua há flexibilidade, até porque os momentos em que podem comer (ou não) os que lhes apetece e ficar acordados até cair para o lado são a excepção e não a regra. Quem nos conhece elogia muitas vezes os miúdos, gaba-lhes o comportamento, a alegria mas não histeria, a obediência, as maneiras, como pedir licença para se levantar da mesa. Quem nos conhece sabe que os miúdos são crianças calmas, visivelmente felizes e inteligentes, com experiências de vida interessantes e gostos pessoais. Não são perfeitos, obviamente, mas os meus filhos são miúdos porreiros. Sempre foram.

Pois que para a minha sogra nós sempre tivemos um "grande problema" com os meninos. Na óptica da senhora os meus filhos estavam sempre cheios de mau olhado. Mau olhado, leram bem.

Sendo que a alminha só conviveu com os miúdos até eles terem 5 e 1 ano respectivamente, é obvio que todos os choros do bebé ou as embirrações da mais velha eram explicadas pelo mal que os outros nos desejavam, claro, porque fome, sono, indisposições várias ou comportamentos-comuns-de-uma-mini-pessoa-em-formação são coisas que não existem. O menino está tão rabugento, é mau olhado. A mais velha faz fita porque quer mais um brinquedo, é mau olhado. Ai coitadinha apanhou varicela, é mau olhado.

E como é que se resolve isto do mau olhado perguntam vocês? Com azeite, obviamente.

Depois de saber então que a minha sogra ia ao bruxo, descobri também que ela própria se orgulha de ter uma costela de bruxa, personificada na sua habilidade para remover maus olhados com água e azeite. Eu nunca vi, mas diz que a meio da noite lá andava ela nas rezas, a livrar o universo as energias invejosas de sei lá quem. Calculo que lhe deva cada noite que os miúdos dormiram descansados, porque ela dizia muitas vezes, quando fazíamos qualquer comentário sobre o assunto, que tinha sido porque ela tinha "limpo" os maus olhados, "pobrezinho do menino, estava carregadinho".

 

O irónico da situação é que se eu quiser olhar para trás com este tipo de pensamento, a única pessoa que eu sou capaz de imaginar a "lançar" maus olhados é ela, bem e a filhinha também, a bruxa júnior. E não estou a especular, a vida melhorou muito quando deixamos de lhe aturar as frescuras, melhorou mais ainda quando deixamos de ter contacto de todo. De toda a gente que me passou na vida nunca conheci ninguém tão invejosa como estas alminhas e numa coisa tenho de dar razão à minha querida sogra, havia de facto alguém "da minha família" a fazer-nos mal, mas esse alguém era ela. De certezinha.

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