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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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"Estou a morrer"

Tenho a certeza - absoluta - que o meu marido não é irmão do Homem da Criatura, ou seja, que não partilhamos a mesma sogra. O que é preocupante. Mesmo muito. Porque isso significa que, pelo menos, existem duas sogras assim, tal e qual as descrevemos.

 

O post que a Criatura escreveu para os 500 fans no Facebook, poderia - com algumas alterações, claro-, ter sido escrito por mim. Também já tivemos uma cena de saída de carro em andamento, mas em pleno bairro de Benfica, Lisboa, com a Carris a ter que travar para não levar a senhora à frente e apenas porque o filho lhe negou levá-la a casa da querida amiga em Sintra, às 7 da tarde de uma sexta-feira, porque precisava de me levar ao Hospital primeiro (gravidíssima de 9 meses, muito incomodada com umas belíssimas dores de rins). Fez um drama que os comboios da linha de Sintra eram medonhos e que podia ser assaltada ou até morrer esfaqueada!

Mas saltar do carro para a estrada da Luz não tem problema nenhum.

O meu marido nessas coisas, gosta mais de filmes de acção, terror e ficção científica e não vai nada à bola com Dramas: verificou no retrovisor que a senhora estava bem e continuou viagem. Não deu um pio sobre o assunto. Eu também não.

Mais tarde no hospital, riu-se à gargalhada e eu ri com ele.

 

Também a minha sogra teve uma série de maleitas que - na perspectiva dela - justificam o comportamento muitas vezes duvidoso e tantas vezes o utiliza para dramatizar e provocar - na perspectiva dela - culpa, nos filhos e nora/genros.

Um desses dramas apanhou-a desprevenida.

 

O desespero dela para chamar a atenção dos filhos é inimigo da perfeição e às vezes esquece-se que nem toda a gente é parvo.

Numa dessas vezes, numa sexta à noite, correu o telefone dos filhos todos para irem a casa dela almoçar no sábado. Ninguém estava para aí virado e toda a gente já tinha outros planos. Nesse sábado, logo pela manhã cedo, começou a deixar mensagens no voice mail a dizer que estava a sentir-se muito mal, que achava que estava a morrer e deixou mensagens de despedida.

O Coiso ouviu a mensagem e ignorou. Tipo história do Pedro e do Lobo, sabem? Simplesmente ignorou. Eu fiquei com a pulga atrás da orelha mas como me foi dito para ignorar também, foi o que fiz.

 

Eu estava de serviço nesse sábado e saí cedo de casa. Mas a sogra - que sempre achou que eu não fazia nenhum e estava sempre a descansar no sofá ou a gastar o dinheiro do filho -, não fazia ideia disso mesmo. Aliás, acho que para ela, eu nunca trabalhei na vida.

Na altura e nesse fim de semana, fazia dois turnos seguidos no Hospital de Santa Maria, no piso de Neurocirurgia mas obviamente, tinha acesso à urgência a qualquer momento, principalmente se fosse a única a fazer as urgências de NC. Estava eu a fazer as rondas quando recebo uma chamada no meu telefone. Por acaso tinha som no telefone, coisa rara quando estou de serviço e atendi a chamada da sogra.

Com uma voz sumida e arrastada, disse-me que tinha sido levada de ambulância para o hospital de Sta Maria, estava nas urgências e muito mal. Que o filho não lhe atendia o telefone e que as filhas também não porque estavam fora de Lisboa e ela estava ali deixada para morrer, sozinha, sem ninguém querer saber dela.

Perguntei-lhe o que sentia e se já tinha sido observada. Respondeu-me "Estou a morreeerrrr" em voz de sussurro e desligou.

 

Respirei fundo, fui ao sistema ver se já tinha sido observada por algum médico (já tinha) e desci do oitavo piso às urgências. Obviamente, quem conhece o HSM, sabe que aquilo é uma cidade, enorme, com imensas alas e corredores e a minha unidade é isolada do edificio central, tendo que fazer uma caminhada jeitosa. Isto para dizer que demorei uns bons 15 minutos a chegar à urgência.

 

Claro que entrei pelo corredor interno e assim que abri a porta, consegui ouvir a gargalhada dela, a tal gargalhada estrondosa que ela faz e pude vê-la conversar com uma acompanhante de outro doente, toda animada e bem disposta.

 

Nesse momento, deu-me assim uma coisinha má. Com a saúde não se brinca e eu tenho muitos anos de ver coisas feias, sérias e para mim, fingir-se doente é muito, muito mau.

 

Ora, imaginem lá a cena. Eu a aproximar-me de bata branca e perguntar-lhe "Então, está a morrer? A mim parece-me de muito boa saúde!" E não é que ela se encosta para trás na cadeira e começa a choramingar com voz sumida "estou muito mal!"...? A senhora com quem estava a conversar uns minutos antes até olhou para mim com os olhos mais abertos que alguma vez vi.

 

Escusado será dizer que lhe respondi que tinha doentes a sério que precisavam de mim e virei costas.

 

Teve alta uns minutos depois, sem qualquer problema. Embora eu tenha dito ao colega da urgência que ela precisava de umas coisas para a demência e para a maldade.

 

Nesse dia contou a meio mundo que a nora dela não prestava para nada, que era muito cruel. Esteve internada (!) no mesmo hospital e nem sequer acompanhei a senhora. Não contou que nenhum dos filhos lhe atendeu a chamada ou ligou a saber dela.

 

Eu vou para o Céu. Tenho a certeza.

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