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à nora com a sogra

Um blog sobre histórias de família em geral e mães de maridos em particular. Ou um registo terapêutico de episódios reais que mais parecem ficção.

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Mais de 1000

Até podia dizer que tenho mais de 1000 histórias da Sogra, porque na realidade, até teria.

Algumas o tempo encarrega-se de levar da memória, outras, o amadurecimento pessoal anula-as da consciência; outras, a fé de que já é intrínseco na forma de ser dela e que na realidade não o faz por maldade mas por não saber melhor, apaga-las da minha paciência.

Mas outras ficam. E moem-me a vontade de lhe sorrir. Porque se eu quiser espremer bem a memória e falar de momentos bons com a Sogra, não me consigo lembrar de nenhum.

Se quiser referir uma bondade que tenha sentido, não encontro ligação no meu coração. E pesa-me essa dor, porque acredito que no fundo, nunca lhe foi intencional ser tão pouco bondosa. Aliás, pesa-me saber que se acha uma Sogra boa e eu não me rever como uma nora abençoada com tamanho título.

Isto porque até nas suas melhores acções, houve sempre malícia, descrédito ou ofensa. Tipo "uma no cravo, outra na ferradura" e normalmente, os bons segundos vinham acompanhados de prioridades de cobrança. Como o facto de nos ter oferecido a possibilidade de usufruto do carro quando o nosso se avariou, tinhamos nós duas bebés muito pequenas, com a obrigação de estar ao dispõr dela para qualquer eventualidade. Afinal, o carro era dela e em 3 dias que o Coiso teve o carro, fez mais voltas com ela (Jumbo, lojas, Colombo, amigas dela,...) do que comigo e as bebés. Aliás, peguei nas miudas e apanhei o comboio sozinha para as levar ao Centro de Saúde, à consulta de um mês e às vacinas. Porquê? Porque mesmo sabendo que tínhamos essa marcação, a senhora demorou-se nas suas compras de Supermercado e o Coiso ficou "entalado" no tempo. Serviu de lição.

 

Eu não gosto de falar mal de ninguém e é preciso que se compreenda que não é isso que se faz aqui. Partilham-se histórias, formas de pensar e atitudes que se tiveram. Não existe, falo por mim, ódio envolvido. Porque não me compete odiar ninguém. Aprendi a amar e gosto de o fazer.

O meu marido compartilha da mesma forma de pensar mas, chama-me ingénua e tantas são as vezes que me diz que sofro mais, porque dou atenção a quem não merece a minha atenção. Que perco demasiado tempo a pensar nos outros (Sogra) e nas suas atitudes. É verdade. Talvez porque não compreenda que a Sogra veja em mim uma inimiga e não alguém que ama o seu filho. Por uns anos isso doía-me. A sensação de ser rejeitada com alguma malvadez, corroía-me. Hoje já ignoro, embora continue sem entender ou sequer sem ter justificação.

E sei que nunca serei suficiente, na cabeça dela. Em todos os sentidos. E aqui entra a preferência dela pelos netos das filhas. É que estas, são minhas filhas e isso não é grande virtude, na cabeça dela.

Principalmente porque há um detalhe que nos dias que correm, não me encaixa como normal. A religião.

 

A minha sogra diz-se devota católica, com todo o seu ser e alma. Tudo certo, até aqui. Tem uma fé inabalável e venera a doutrina como se fosse o seu único alimento. Certo.

No fundo, tudo o resto é herege perto dela e todos têm que obedecer a essa sua crença. Ponto final, parágrafo.

 

Eu sou crente. Ou chamem-lhe lá o que quiserem. Dou-vos essa liberdade, porque no final das contas, estou pouco me lixando para o que cada um pensa. Acredito em Deus, sinto-lhe a força e a fé mas não preciso que me digam onde e como me dirigir a ele, não preciso que me coloquem duas gotas de água para me dizerem que sou abençoada ou que tenho a sua energia. Convivo bem com as diferentes formas de existir de todos nós e sei que o que alimenta cada um, é sentido de cada um. A minha forma de pensar não tem que ser igual nem me cabe a mim contestar ou justificar a minha ou a de outros. Chama-se liberdade e muitos morreram ao longo dos séculos para lutar por ela.

 

Desta forma, e acreditando que a liberdade é algo que todos temos de mais precioso, nenhuma das nossas crianças foi baptizada à nascença, deixando para elas a opção de o fazerem quando assim o entenderem, na religião com a qual se identificarem. Ensinamos o que de mais precioso sabemos, a amar, a respeitar, a acreditar na fé que sentimos, quer elas lhes chamem de Deus, de Buda, de ... não importa. Ensinamos a SENTIR e elas definirão nos seus corações, o que lhes falará mais alto. A mesma liberdade que me foi concedida, pelos meus pais.

 

E era aqui que eu queria chegar.

De todas as pequenas grandes atitudes que a minha Sogra tem, são as que ela tem para com as minhas crianças as que me custam mais e as que o tempo não leva, as que a maturidade pessoal não entende, as que o meu coração tem dificuldade em perdoar. Porque as vejo sofrer com algumas das suas atitudes e isso, dói-me como uma lança.

 

A pequenina ainda tinha semanas de vida, as outras tinham 8 e 6 anos. Eu estava numa cama de hospital, gravemente doente. Ao meu lado estava a minha bebé recém nascida, gravemente doente, também. Eu aguentando, ela lutando. As duas mais velhas, com o pai, junto a nós. Na sua inocência, rezavam ao Anjo da Guarda, pedindo com o coração que Deus nos perdoasse e nos devolvesse a vida. Que Deus parasse de castigar e nos perdoasse o pecado de não sermos baptizadas e que elas iam pedir para serem baptizadas para não morrerem também.

E foi aí que eu soube: durante dias e dias a senhora minha Sogra azucrinou os ouvidos das minhas filhas que íamos para o Inferno porque não éramos baptizadas e que Deus ia-nos castigar com a morte.

 

8 e 6 anos. A avó, diz-lhe que a mãe e a irmã bebé vai morrer e é bem feita mas que a avó vai mandar rezar missa de baptismo e baptizá-las logo, para que a morte não as leve e elas não desçam ao Inferno.

 

Nunca vos conseguirei transmitir a dor de alma de ver o medo estampado na carinha delas. Nem o esforço que foi fazê-las re-acreditar na vida sem torturas ou castigos de Deus.

 

O meu marido proíbiu a mãe de se aproximar das nossas filhas e durante meses foi pessoa com quem não tivemos contactos. No primeiro aniversário da neta mais nova, eu senti compaixão e pedi que o meu marido deixasse a avó ver as netas. Porque em última instância, é amor que quero que as minhas filhas aprendam, não o ódio.

 

Valeu de alguma coisa à senhora? Aprendeu com a ausência? Não.

 

E hoje, 8 anos depois, continua a dizer às minhas miúdas que se não se baptizarem e morrerem, vão para o Inferno. Assim como eu.

 

Não lhe desejo mal. Nunca o desejei. Só desejo distância. Muita.

Nem no outro lado do mundo, senhores!

É que podíamos dizer que os mais de 5000 km que nos separam actualmente, me livram da irritação que é a língua afiada desta minha sogra.

Mas não.

Na semana passada a minha cunhada fez anos e ligou-se o Skype para se fazer o inevitável encontro de irmãos. Claro que a sogra estava presente e claro que aproveitou para jogar aquele olho gordo para tudo o que pudesse agarrar, criticar, axincalhar. No inicio da conversa com a minha cunhada, a coisa até correu bem, eu achava que o facto de estarmos todos juntos no pc nos livrava de denunciar muito do nosso lar e que a senhora iria conseguir abster-se de muitos comentários.

Mas não.

Em 10 minutos de Skype, conseguiu olhar para as miúdas e achar defeitos em todas. Ora o cabelo está muito longo, faz-te a cara alongada, ora estás mais redondinha, ora tens os dentes de coelho... enfim, ela lá conseguiu encontrar o que dizer. De mim, nada disse, a não ser perguntar por mim da forma mais curiosa "Então a vossa mãe, onde está? A limpar a casa? Ou foi às lojas?".

Uma das miúdas acabou por dizer à Tia que no Verão iriamos de férias e que estaríamos uns dias lá na cidade mas depois seguíamos para o Algarve. Como uma das cunhadas teve bebé, estava nos planos ir visitá-las. A coisa ficou por aqui. Eu, da minha parte, fui espectadora mas muito pouco faladora.

Uns dias depois foi o meu aniversário. Para meu grande espanto, já à noitinha, recebo um telefonema da sogra. Podia ter sido um telefonema simpático, cortês.

Mas não.

Eu atendi, ela cantou os parabéns para a Coisa (!) [sim, ainda acreditei que pudesse ouvir o meu nome] e depois rematou com "olha, sei que estão a pensar vir cá no Verão, mas aviso já que tens que marcar já e depositar já 50% do valor do aluguer senão não garanto que a casa esteja livre".

Eu ainda ía ser simpática, mas depois, este espaço aqui tem-me dado assim umas forças engraçadas e resolvi ser educada mas assertiva:

- "Quem é que lhe disse que vamos ficar em alguma das suas propriedades? Nós temos onde ficar e se quisessemos alugar uma casa de Verão, a sua seria a última onde ficaríamos. Gostamos de nos sentir bem e de nos sentirmos em bom ambiente."

A conversa dela foi logo que agora o aldeamente tinha uma nova empresa de limpeza e que a piscina pátáti pátátá e eu cortei a conversa e disse assim meio tom acima "Oiça D.sogra, não está a entender, não ficava na sua casa nem que fosse de graça, nem consigo lá nem sem si. Não há pano que limpe a sua má energia".

Começou a dizer qualquer coisa mas eu não ouvi, tirei o telefone do ouvido e estiquei-o ao meu marido. "Toma, é a tua mãe".

"Olá, mãe, como estás, vou passar às tuas netas", foi só o que ela ouviu dele.

Nem 2 minutos depois as miudas retornavam o telefone à base. Tal foi a grande conversa e as imensas saudades.

 

Mais tarde uma delas disse-me que a Avó lhes disse que se quisessem passar uns dias na casa de Albufeira, que convecessem o Pai. A Avó fazia um preço especial por ser para as netinhas queridas.

 

Eu repondi que, se ela dá valor ao Pai de bom humor, mais valia esquecer o assunto.

 

Não há paciência.

"Estou a morrer"

Tenho a certeza - absoluta - que o meu marido não é irmão do Homem da Criatura, ou seja, que não partilhamos a mesma sogra. O que é preocupante. Mesmo muito. Porque isso significa que, pelo menos, existem duas sogras assim, tal e qual as descrevemos.

 

O post que a Criatura escreveu para os 500 fans no Facebook, poderia - com algumas alterações, claro-, ter sido escrito por mim. Também já tivemos uma cena de saída de carro em andamento, mas em pleno bairro de Benfica, Lisboa, com a Carris a ter que travar para não levar a senhora à frente e apenas porque o filho lhe negou levá-la a casa da querida amiga em Sintra, às 7 da tarde de uma sexta-feira, porque precisava de me levar ao Hospital primeiro (gravidíssima de 9 meses, muito incomodada com umas belíssimas dores de rins). Fez um drama que os comboios da linha de Sintra eram medonhos e que podia ser assaltada ou até morrer esfaqueada!

Mas saltar do carro para a estrada da Luz não tem problema nenhum.

O meu marido nessas coisas, gosta mais de filmes de acção, terror e ficção científica e não vai nada à bola com Dramas: verificou no retrovisor que a senhora estava bem e continuou viagem. Não deu um pio sobre o assunto. Eu também não.

Mais tarde no hospital, riu-se à gargalhada e eu ri com ele.

 

Também a minha sogra teve uma série de maleitas que - na perspectiva dela - justificam o comportamento muitas vezes duvidoso e tantas vezes o utiliza para dramatizar e provocar - na perspectiva dela - culpa, nos filhos e nora/genros.

Um desses dramas apanhou-a desprevenida.

 

O desespero dela para chamar a atenção dos filhos é inimigo da perfeição e às vezes esquece-se que nem toda a gente é parvo.

Numa dessas vezes, numa sexta à noite, correu o telefone dos filhos todos para irem a casa dela almoçar no sábado. Ninguém estava para aí virado e toda a gente já tinha outros planos. Nesse sábado, logo pela manhã cedo, começou a deixar mensagens no voice mail a dizer que estava a sentir-se muito mal, que achava que estava a morrer e deixou mensagens de despedida.

O Coiso ouviu a mensagem e ignorou. Tipo história do Pedro e do Lobo, sabem? Simplesmente ignorou. Eu fiquei com a pulga atrás da orelha mas como me foi dito para ignorar também, foi o que fiz.

 

Eu estava de serviço nesse sábado e saí cedo de casa. Mas a sogra - que sempre achou que eu não fazia nenhum e estava sempre a descansar no sofá ou a gastar o dinheiro do filho -, não fazia ideia disso mesmo. Aliás, acho que para ela, eu nunca trabalhei na vida.

Na altura e nesse fim de semana, fazia dois turnos seguidos no Hospital de Santa Maria, no piso de Neurocirurgia mas obviamente, tinha acesso à urgência a qualquer momento, principalmente se fosse a única a fazer as urgências de NC. Estava eu a fazer as rondas quando recebo uma chamada no meu telefone. Por acaso tinha som no telefone, coisa rara quando estou de serviço e atendi a chamada da sogra.

Com uma voz sumida e arrastada, disse-me que tinha sido levada de ambulância para o hospital de Sta Maria, estava nas urgências e muito mal. Que o filho não lhe atendia o telefone e que as filhas também não porque estavam fora de Lisboa e ela estava ali deixada para morrer, sozinha, sem ninguém querer saber dela.

Perguntei-lhe o que sentia e se já tinha sido observada. Respondeu-me "Estou a morreeerrrr" em voz de sussurro e desligou.

 

Respirei fundo, fui ao sistema ver se já tinha sido observada por algum médico (já tinha) e desci do oitavo piso às urgências. Obviamente, quem conhece o HSM, sabe que aquilo é uma cidade, enorme, com imensas alas e corredores e a minha unidade é isolada do edificio central, tendo que fazer uma caminhada jeitosa. Isto para dizer que demorei uns bons 15 minutos a chegar à urgência.

 

Claro que entrei pelo corredor interno e assim que abri a porta, consegui ouvir a gargalhada dela, a tal gargalhada estrondosa que ela faz e pude vê-la conversar com uma acompanhante de outro doente, toda animada e bem disposta.

 

Nesse momento, deu-me assim uma coisinha má. Com a saúde não se brinca e eu tenho muitos anos de ver coisas feias, sérias e para mim, fingir-se doente é muito, muito mau.

 

Ora, imaginem lá a cena. Eu a aproximar-me de bata branca e perguntar-lhe "Então, está a morrer? A mim parece-me de muito boa saúde!" E não é que ela se encosta para trás na cadeira e começa a choramingar com voz sumida "estou muito mal!"...? A senhora com quem estava a conversar uns minutos antes até olhou para mim com os olhos mais abertos que alguma vez vi.

 

Escusado será dizer que lhe respondi que tinha doentes a sério que precisavam de mim e virei costas.

 

Teve alta uns minutos depois, sem qualquer problema. Embora eu tenha dito ao colega da urgência que ela precisava de umas coisas para a demência e para a maldade.

 

Nesse dia contou a meio mundo que a nora dela não prestava para nada, que era muito cruel. Esteve internada (!) no mesmo hospital e nem sequer acompanhei a senhora. Não contou que nenhum dos filhos lhe atendeu a chamada ou ligou a saber dela.

 

Eu vou para o Céu. Tenho a certeza.

[500] Prometido é devido.

Outro dia, prometi na página do facebook, que quando estivéssemos nos 500 likes, contava o que aconteceu da única vez que confrontei directamente a minha sogra. E prometido é devido.

A minha sogra gosta de cultivar a ideia de que é maluca, porque se ela o fizer, tem sempre desculpa para se comportar da pior forma. Diz que quando o Homem era pequeno um incidente grave lhe tirou saúde física e mental, eu não sou médica para argumentar sobre isso, mas tenho a certeza, que a parte psicológica foi aumentada por ela ao longo do tempo, para se poder safar do mau carácter, para poder fazer o que lhe apetece, para ser sempre a coitadinha que tem desculpa, porque pobrezinha, tantos anos e ainda não está boa da cabeça. Para algumas coisas estava sempre muito desorientada, mas para outras já funcionava perfeitamente, era conforme o assunto e o interesse, conforme o que lhe dava mais jeito. A minha sogra é assim tipo uma diva** vá, mas em mau.

Pois que sempre houve tensões, mas tirando aquela vez, tenho praticamente a certeza que nunca a confrontei directamente. É que é aborrecido lidar com gente parva, que não sabe dialogar e arranja constantemente chatices. Como de uma vez em que ficou na nossa casa e que resolveu desaparecer sem dizer rigorosamente nada, já era tardíssimo e começamos a ficar preocupados, quando finalmente chegou devemos ter manifestado isso mesmo, pedindo que dissesse qualquer coisa quando fosse sair, só naquela de não ficarmos a pensar que tinha sido atropelada por um camião ou raptada por uma grupo de terroristas, mas a alminha não compreendeu e prontamente fez uma birrinha, que se ia embora e que nós a tratávamos mal, que a estávamos a desrespeitar e mi mi mi.

Certo ano, fomos de visita a outro país, passar o natal com a sogra e com o marido nº3 (quando eu contar sobre o marido nº3 é que vai ser!). Diz que o natal é uma época muito dolorosa para a senhora e como ela coitadinha tem problemas, é preciso dar o desconto. Dando os descontos todos, tivemos episódios fabulosos como cruzar-se connosco na rua (numa cidade que fomos visitar por causa dela) e não nos falar, por exemplo, ou como o de na véspera de natal ter oferecido presentes a toda a gente (incluindo pessoas que ela nunca deve ter visto na vida, mas que sabia que lá iam estar) menos a mim. Já nem falo da garrafa de lixívia no porta-bagagens, que apesar da tampa de segurança, se abriu e me desgraçou uma saia acabada de comprar, porque não quero que pensem que estou a insinuar que ela a deixou mal tapada de propósito.

Anyway... Numa tarde qualquer, quando já andávamos constantemente a engolir desaforos e viver de silêncios desconfortáveis, fomos passear a um sitio qualquer para aqueles lados. Estou a ser honesta quando digo "sítio qualquer", porque efectivamente não me lembro onde fomos, é que não faço a mais pálida ideia. O que sei é que apanhamos imenso trânsito, assim daquele trânsito que não dá para fugir, numa estrada minúscula bloqueada nos dois sentidos. A minha querida sogra, pessoa que não pode estar mais que cinco minutos com o rabo na mesma cadeira, já estava a deitar fumo pelas ventas. A Miúda era muito pequena e às vezes chorava, foi preciso entrete-la com conversas e cantorias e no entretanto, a alminha continuava a bufar. O sol foi descendo e o que deveria ter sido uma volta para ver a vista, foi um flop, porque ficou escuro. Quando finalmente chegamos ao sítio já estava toda a gente com os nervos em franja, ela porque, bem, nem sei porquê e nós, porque aturá-la é pior do que mudar 546 fraldas cheias de cocó e a senhora tem o dom de tornar qualquer situação desconfortável.

Não sei como começou a discussão, deve ter sido qualquer coisa sobre o que fazer a seguir, porque entretanto continuávamos no carro, às voltinhas, a tentar decidir qual direcção tomar. Nós estávamos exaustos, tínhamos uma criança pequena e provavelmente deveríamos querer comer qualquer coisa e ir descansar e ela queria ir alapar-se para casa de uma irmã que vivia para ali perto. Sei que a certo ponto, no meio de toda aquela insanidade ela me disse (já aos berros) qualquer coisa como "não gosto da maneira como tratas o meu filho" e eu, que estava a tentar estar calada com todas as minhas forças, respondi-lhe. Respondi-lhe e não foi no meu tom bonzinho e condescendente. Respondi-lhe à bruta, porque olha, já que tenho a fama, também quero ter o proveito.

E é agora que as pessoas pensam, pronto passou-se, foi para ali uma peixeirada do caraças, começou tudo aos berros e veio a polícia porque estavam a perturbar a ordem pública. Mas não. Não foi isso, lamento.

Não se pode negar que lhe respondi, que respondi, mas para ser sincera não respondi muito. Ia lá aquela pessoa dar-me oportunidade de dizer o que pensava... Assim que se viu confrontada, a minha rica sogra fez o que é seu apanágio em situações semelhantes, fugiu. E para fugir o mais rápido que conseguia, nem esperou... Saiu do carro em andamento! Assim mesmo como se imagina, abriu a porta e foi-se embora. Vá lá que íamos devagar senão calculo que tínhamos acabado o serão no hospital.

Se atentarmos ao facto de estarmos numa terrinha no meio do nada, de noite escura, com graus negativos lá fora então a coisa mais inteligente a fazer no meio de uma discussão (que nós próprios criamos) não é sair de um carro em andamento e desaparecer da vista? Obviamente que é. 500 pontos para a minha sogra. É a maior.

Contas feitas a coisa foi tão boa ou tão má, que eu, que adoro viajar, cheguei a casa e fui ligar para a companhia área para trocar os bilhetes e regressar mais cedo. Infelizmente, dada a época, não conseguimos e tivemos de aguentar aquele filme mais uma data de dias. Foram os melhores (NOT!) natal e ano novo da minha vida, uma oportunidade única de aprender uma lição importantíssima: o lugar da (minha) sogra é a milhas, quantas mais melhor. Pena que ainda me levou 5 anos para por o ensinamento em prática.

 

 

**O significado moderno de prima donna assenta-lhe que nem uma luva. Para ver, AQUI.

Obrigada. Do <3.

Este blog (e respectiva página no Facebook) está para fazer duas semanas de vida. Duas semanas. Nunca pensei (e acho que a Coisa também não) que teríamos tanto feedback positivo no espaço de 15 dias. Principalmente na página, mas também aqui e no mail, têm-nos chegados as mais diversas reacções: gargalhadas, palavras de incentivo e muitas de empatia, de pessoas que passam pelo mesmo ou semelhante e que aproveitam para deixar um pouco de si, daquilo que vivem.

Isto das relações familiares, em particular com as sogras, não é só piadas fáceis e histórias engraçadas. Há toda uma luta que se perde ou ganha, toda uma tristeza que é preciso superar, porque poderia ter sido diferente se houvesse um bocadinho mais de amor, de interesse, de discernimento, de respeito. Hoje consigo fazer remoques e graçolas, mas durante muito tempo tudo o que aqui vou contando foram nós na garganta, nuvens negras e motivos para não viver em paz. Nunca consegui compreender o porquê de ter sido tomada de ponta, enxovalhada para toda a gente, pintada como um bicho. Nunca haverei de compreender, principalmente desde que tenho miúdos que sabem exprimir os seus gostos e vontades, como é possível não se respeitar as escolhas dos filhos e ano após ano se continuar a apontar defeitos imaginários e a espalhar discórdia.

 

Eu acredito que de vez em quando há pessoas que se cruzam connosco para nos tornar melhores, para nos fazer ver, superar, persistir. Quando a vida me colocou a Coisa no caminho não falamos sobre sogras, só mais tarde percebemos ter este assunto em comum e na brincadeira dissemos que devíamos escrever um livro. Da ideia de um hipotético livro nasceu este blog.

 

Quando criamos este espaço não o fizemos só para contar piadas ou dizer mal, de todo, um dos objectivos é também este, partilhar, mostrar a quem vive situações parecidas que não está sozinha/o, permitir desabafos e distribuir abraços apertados. Por compreendermos que este é um assunto complicado para muita gente, lembramo-vos que podem sempre escrever no blog onde são permitidos comentários anónimos, também podem enviar mensagens privadas na página do Facebook e se quiserem que alguma opinião seja publicada é só dizer, será sempre mantido o anonimato.

 

Obrigada por estarem desse lado. Obrigada. Do <3.

 

Quem empresta não melhora. E quem pede emprestado também não.

Certo dia lembrei-me que gostava de experimentar coser à maquina e como não tinha nenhuma resolvi pedir a da sogra emprestada. A máquina de costura da sogra estava fechada num apartamento usado meia dúzia de vezes por ano, daí ter calculado que não lhe faria muita diferença o empréstimo. Depois da autorização dada lá comecei a aprender a mexer naquilo e nem me saí mal, fiz imensas coisas úteis e giras. Descobri todo um novo mundo!

 

Passou-se algum tempo e eu continuei a usar a máquina de costura da sogra. Certo dia ela telefona-me e diz-me que tenho de dar a máquina à filha, porque a filha tinha uma amiga que queria fazer uns cortinados para a sala e precisava dela. Fiquei com pena, mas obviamente agradeci e prontamente devolvi a máquina. 

 

Durante algum tempo não costurei, embora eu já andasse com vontade de comprar uma para mim, naquela altura não dava jeito gastar dinheiro em coisas não essenciais. 

 

Entretanto avariou-se-nos a máquina de lavar loiça e se não dava jeito comprar uma de costura, uma de lavar loiça muito menos. Foi então que não sei de onde apareceu a ideia peregrina de pedir a da sogra emprestada. O apartamento estava sempre fechado e a máquina pouco era usada, nós éramos 4 e tínhamos duas crianças pequenas, parece-me a mim que para pessoas com o coração no lugar isto é uma ideia razoável. Não fui eu que discuti o assunto, mas logo de início a coisa estava a correr para o mal, nevertheless a máquina acabou por vir para nossa casa. Não me recordo quanto tempo a usámos, sei que a estimávamos ainda mais do que se fosse nossa apesar daquela porcaria deitar água por baixo, coisa que já fazia na casa da mãe do Homem, mas que ela se esqueceu de nos dizer.

 

Passou-se mais algum tempo. Eu continuava a não costurar e usávamos a máquina de lavar loiça da sogra. 

 

No meu aniversário desse ano a minha mãe ofereceu-me um máquina de costura e eu fiquei muito, muito contente. Dias mais tarde, ao falar com a sogra, já não sei bem porquê, foi mencionado isso mesmo. Uma pessoa boa teria ficado feliz por mim, não era? Pois, mas não foi o que aconteceu. Do outro lado, a resposta (em tom arrogante) foi qualquer coisa como "Ah sim?! Então agora a seguir podes pedir-lhe para te oferecer uma máquina de lavar loiça!".

 

Fiquei para morrer. 

 

Aquele dia foi para mim o início do fim. Mais de 10 anos a acumular desaforos e a por mesquinhices para trás das costas, aquela frase foi o que fez transbordar o copo. Ainda hoje me faz confusão como é que uma pessoa pode ser tão horrível, tão má. Essa noite foi a última em que a máquina de lavar loiça da sogra esteve na nossa casa. No dia seguinte foi devolvida à origem e durante os seis meses seguintes, tempo que levou até comprarmos uma nova, lavei todos os dias a loiça à mão, com muito orgulho e a consciência tranquila. 

 

Acho até que essa foi das últimas vezes que falei com a mãe do Homem, foi nesse dia que cheguei ao meu limite e deixei de tolerar o mau carácter da senhora. I was done. Finally. 

 

Mas calma, a história não acaba aqui!

 

Lembram-se da máquina de costura? E do telefonema a dizer para dar à filha para a filha emprestar à amiga que queria fazer cortinados? 

 

Tuns out, a máquina nunca saiu da casa da filha. A amiga, que eu por sinal também conheço, nunca quis fazer cortinados (disse-me pessoalmente algum tempo mais tarde). O que aconteceu foi que eu estava a usar a máquina e a fazer coisas giras e a dor de cotovelo é lixada. Não sei de quem terá sido a ideia, mas o objectivo era só um, tirar a máquina lá de casa mesmo quando não fazia falta a ninguém, nem à mãe (que estava bem longe) nem à filha (que é assim para o limitado). Uma maravilha, certo?

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